TEXTOS DO AUTOR

PAPAI NOEL, ENFIM, TIRA A ROUPA

Pois é, com tantas coisas importantes para se tratar no Natal, tiraram a roupa do Papai Noel.

A danada da placa na entrada do Lago Norte naquele ano de 1995 me levou até a escrever para o Senhor  Redator do Correio Braziliense. Quem passa pela entrada do Lago Norte, em Brasília, talvez se lembre da placa “Lago Norte: o prazer de bem viver. Isso mesmo! Morador do Lago Norte, um bon vivant.  E a Codeplan recentemente dissera que era mesmo!  E eu, assalariado celetista de então, três anos sem aumento, ficava a pensar – devo ser um dos poucos que puxa a média para baixo.

Em 1996, pensei até em sugerir mudanças no texto. Seria demais para mim aquela velha placa. Mas só pensei, guardei comigo.  Seria assim: "Nós do Lago Norte estamos contentes por sermos felizes", na mesma linha da  redundância do “prazer de bem viver”. Afinal, viver bem dá um enorme e pleonástico prazer, segundo o marqueteiro do cartaz. 

Mas eis que o marqueteiro do Lago Norte, imbuído do mesmíssimo espírito do ano 1995, voltou a atacar.  Tirou a roupa do Papai Noel! 

Colocou-lhe uma sunga de bolinhas brancas, óculos escuros, ofereceu-lhe uma bebidinha. Fotografou-o à beira da piscina.  E anunciou:  "Papai Noel, no Lago Norte, vai se sentir em casa".  Como se sentir em casa? Se lá no Polo Norte, que eu saiba, a sunga dele estava mofando na gaveta?

Naquele mesmo Natal de 1996, minha mãe, que nos visitava, observou atentamente o outdoor que ostentava uma criatura norte-lacustre em pose mediterranée, óculos escuros, birita na mão.  Península Norte a jorrar leite e mel.  Foi taxativa. Descobrira finalmente por que não me sobrava dinheiro.  Era porque eu só  pensava na boa vida do Lago... E cortou a mesada que dava aos meus filhos!

Já em 1997, não me preocupava tanto o fato de Papai Noel ter descoberto o prazer de viver bem, próprio do Lago Norte, segundo o comunicador de última geração.  Preocupava-me o fato de que o bom velhinho, com a nova vida de prazeres imediatos, se esquecesse de escovar as renas, tirando delas os carrapatos como sempre amorosamente fazia.  De engraxar as suas botas. De atender em tempo hábil à enxurrada de cartas. Preocupava-me, sim, o fato de que não mais se lembrasse – e nos lembrasse e até nos alertasse – de que Natal é uma excelente e última oportunidade no ano para nos tornarmos definitivamente mais fraternos. E se esquecesse de entregar os presentes que tantas crianças carentes, de pais ausentes, esperam sem lograr êxito.

Tudo isso, de 1997, vale para 2013. Feliz Natal! (com Jesus).

Aristides Coelho Neto, 21.12.2013 (lembrando texto de 10.12.1997)

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