TEXTOS DO AUTOR

QUANDO O REVISOR VIRA NÁUFRAGO

A hora certa de o revisor abandonar o barco.

Como eu me dediquei ao livro do octogenário! Cliente especial! Dotado de rara sensibilidade, como ele escrevia bem! E assumi o livro como se fosse meu. Revisei, copidesquei. Viajei até Goiás. Fotografei. Defini capa. Fiz orelhas.  Fiz quarta capa. Onde me foi permitido, inseri até conceitos sobre Kardec, que, na visão do autor, não condiziam bem com a realidade. É óbvio que ganhei um amigo. No entanto, na última hora, um telefonema do diagramador.

— Acho melhor substituir Brasília por Anápolis na folha de rosto, o que acha? já que o autor mora lá?

— Concordo. Tem razão. Isso mesmo, por que Brasília? Pode fazer!

Sabem o que saiu? “Anápolís”, com dois acentos agudos. Nunca confiar, eis a regrinha básica.

Num novo trabalho eu dissera que começaria com uma assepsia geral ao longo do texto em meio magnético. Após, procederia à primeira revisão textual. Nesse momento eu dialogaria com a autora ou autores. Momento de apresentar e dirimir dúvidas. A estratégia de atuação em meio magnético poupa uma conferência pelo diagramador (que sempre precisa ser checada pelo revisor). A partir daí seria feita a formatação pela gráfica, gerando a  segunda revisão, aquela que ocorre no texto já diagramado e impresso. Correções, dessa vez, efetuadas pelo diagramador. O ideal sempre é que o revisor acompanhe as correções. Mas vocês sabem que nem sempre isso é possível.

Outra revisão, uma terceira, mais rápida — o pente-fino —,  deve ser feita sobre prova de prelo ou prova heliográfica, já na iminência de gravação de chapa para a impressão propriamente dita. Mas deu tudo errado. Correrias de última hora, editor, também diagramador, indo à minha residência no fim de semana, dizendo que tinha de gravar chapa na segunda-feira, que a entrega dos livros empacotados seria na terça, com hora marcada. Vim a saber depois que não era verdade...

Mama mia! A última versão não havia sido submetida à autora. Isso não dá boa coisa, vocês sabem. Mas embarquei na canoa furada. Aquelas decisões inexplicáveis que você toma, em homenagem à sua milenar imbecilidade, memória genética, comprovação da teoria de Darwin, aquela bobeira latente... que aflora de vez em quando.  E fiz o que pude, sem conferir com o original. Igualzinho um marinheiro de primeira viagem. Me ative a problemas de hifenização, numa passada d’olhos em diagonal. Ao final, ainda inconformado com o texto da autora, copidesquei mais um pouquinho.  Não percebi — pasmem! — que vinte páginas haviam sido suprimidas por descuido do diagramador.

Nada de assinaturas de aprovação, tudo acontecia em regime de confiança. O prazo a mim concedido era exíguo. Como foram consolidadas as minhas observações feitas no papel? Não as vi. Isso mesmo, não as vi! Resultado? Livro pronto, autora, também octogenária, em crise. Em ponto de bala! Pudera!

E seguiram-se reuniões estafantes. Casal de advogados amigos da autora intervindo. O marido advogado cuidando da parte legal, no ato de pressionar a gráfica/editora quanto à responsabilidade nos prejuízos. A esposa advogada assumindo a segunda revisão (ora vejam!), que na realidade não existira nos moldes desejáveis. Teria ela trabalhado sobre a versão correta? E o revisor sendo preterido, sem chances de defesa. O casal nada cobrou, e a autora, claro, mantém uma dívida de gratidão imensa para com eles. Amigos e heróis. Ao pegar uma revisão no finalzinho, só sobram os lauréis.

Vivendo e aprendendo, vamos à moral da história.  Cliente quer resultados, não importa o quanto você tenha contribuído para o aumento da qualidade da obra, o quanto você tenha se descabelado, menos ou mais ghost writer. Acha que foi engolido pela  correnteza? Ora, muito simples: há de se ter discernimento para pular do barco na hora certa, se não quiser ser cuspido. A regra é a de sempre — não confiar em diagramador, digitador, editor, não confiar no entregador de pizza. Ou seja, preservar a sua condição de profissional. Revisor é visto como o guardião da obra. Se não de fato, pelo menos na hora de naufrágios. E ser cuspido do barco não é bom nem um pouquinho.

Aristides Coelho Neto, 10 jun. 2008

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