TEXTOS DO AUTOR

ENGARRAFAMENTO

Haja preocupação com as emissões de gás carbônico. E haja engarrafamento.

Quando aumentam as construções, as vias pavimentadas, a frota de veículos,  numa cidade, alguns acham que é indicativo de civilização. Outros abominam esse tipo de “civilização”, pelos transtornos e neurônios queimados que proporciona. E têm certeza de que não é motivo para comemorar. Os urbanistas têm bons motivos para se preocupar. Aliás, não é bem uma preocupação, já que é demanda para o seu trabalho especializado. Fala-se em planejamento, que deixou de ser feito ou que deve ser feito com visão diferente.  E os ambientalistas tremem nas bases diante do avanço da urbanização, em contraposição ao equilíbrio dos ecossistemas.

Brasília — leia-se Distrito Federal — está atingindo antes do meio do ano de 2008 a cifra de 1 milhão de veículos. São Paulo, capital, 6 milhões. Haja carro. Haja preocupação com as emissões de gás carbônico, e com o sistema tão falho de transporte coletivo. Haja engarrafamento. Parece que o brasileiro adotou mesmo o modelo americano, em detrimento do europeu. O primeiro, dizem, prima pelo egoísmo do transporte individual. Vocês devem lembrar-se dos carros enormes americanos, tão poluentes quanto bebuns de combustível.  O segundo, pelo altruísmo do transporte coletivo, que se traduz em muito investimento no planejamento e na qualidade.

Bem, enquanto a qualidade não chega, o que se vê nos horários de pico — ameaça de caos no trânsito, com os inevitáveis imbróglios no fluxo de carros, também chamados engarrafamentos. E nos valemos de artigo de Sérgio Rodrigues, na Revista da Semana (24.3.2008, p. 41) para dizer algo sobre a origem do termo. Congestionamento é como um líquido contido numa garrafa e que só tem uma saída estreita, o gargalo. A comparação de trânsito com garrafa é bem-feita. Embora “garrafa” seja palavra antiquíssima, “engarrafamento” (embouteillage, no francês, embotellamiento, no espanhol, imbottigliamento, no italiano) é termo que data do século 19, significando “ato de meter em garrafas”, como afirma Rodrigues. Uma acepção adicional ligada a tráfego entupido, lento, surgiu em paralelo com o desenvolvimento da indústria automobilística, por volta de 1920.

E o que se constata hoje é uma série de equívocos que levam a engarrafamentos. As pessoas preferindo erroneamente um carro a uma casa, como representação de segurança e/ou status. A falta de planejamento, o transporte urbano deficiente. E ainda o egoísmo bobo de andar sozinho num carro para cinco pessoas.  Bem, toda forma de egoísmo é boba. E eis a nova situação: antigamente, quando chovia, podia-se apenas engarrafar a água. Hoje, engarrafa-se o trânsito também, principalmente nas grandes metrópoles.  

Aristides Coelho Neto, 24 mar. 2008

Comentários (3)

Voltar