TEXTOS DO AUTOR

QUINCAS E O DESFALQUE NA BIBLIOTECA

Relendo a obra de Jorge Amado num exemplar com anotações comprometedoras.

Há instantes em que a gente estaciona diante da estante, corre o dedo, para numa lombada. E puxa um livro. 

Puxei "A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua", de Jorge Amado. Fininho, ler de novo, por que não? Vocês devem se lembrar do enredo. 

Quincas, o bêbado contumaz, figura da vadiagem, ídolo dos malandros da noite de Salvador  — que antes tinha sido o respeitável Soares da Cunha — morre sem que ninguém esperasse. Registre-se que quem muito bebe raramente enxerga porvir sombrio. Vive o presente, de futuro incerto.  Nem cabe aqui saber dos porquês da transformação radical de um cidadão exemplar em vagabundo. Sempre há motivo. O autor, sagaz e genial, não explica. Paira o mistério. 

Chega aos ouvidos da família que Quincas fora encontrado morto na espelunca em que vivia. Surge o desejo deles de promover um enterro digno. Na verdade, um resgate impossível do que imaginavam ser a verdadeira identidade de Joaquim (e não Quincas, negligente e vagabundo). No entanto, a notícia da morte de Quincas correra meio mundo. Uma infinidade de amigos, inconsoláveis, lamentavam o seu passamento. E quatro melhores amigos de Quincas acabam por chegar ao velório. Óbvio que não foram bem recebidos.  

Ao ficarem sozinhos por alguns momentos com o morto, já mamados de cachaça, resolvem introduzir o morto na bebedeira. E o carregam para uma última festividade entre amigos diletos. O que seria um funeral triste passa a uma exaltação sem par, com sabor não de despedida, mas de uma reverência amiga dessas de aniversário. Tudo como se vivo Quincas estivesse.   

É essa parte da narrativa que expõe a comicidade da obra, em que Jorge Amado apela para o absurdo, licença concedida a todo autor. Carregado pelos amigos, Quincas envereda por farra homérica. As andanças agregam todo o círculo de amizades do morto, que ali não é considerado morto.  A história termina com um passeio marítimo na calada da noite, com o morto caindo no mar. A morte, para a família, foi antes desse desfecho — até hoje não entenderam o sumiço do falecido.  Para os amigos, o desenlace foi ali no mergulho na tempestade, no mar. 

Surgem mil interpretações, inclusive a minha, um tanto inusitada pra muitos de vocês, mas que vou compartilhar daqui a pouco.  

Segundo Jorge Amado, Quincas teria dito algo antes de precipitar-se nas ondas revoltas: "Me enterro como entender, na hora que resolver. Podem guardar seu caixão pra melhor ocasião. Não vou deixar me prender em cova rasa no chão. E foi impossível saber o resto de sua oração".

Surgiu em mim, não consigo explicar, uma vontade de deixar bem delineada uma mensagem pra ser lida após o meu desaparecimento, ou desencarne, como preferirem. Que, por sinal, nunca imaginei em uma tempestade. Essas leituras têm poderes mágicos, às vezes eu penso. Suscitam minhocas.

Comecei até a ensaiar o texto... foi quando deparei com uma ficha de livro grudada na terceira capa, aquela no verso da contracapa. Registro 56/00. O livrinho que eu acabara de degustar na realidade era da biblioteca de uma escola pública da Asa Norte. Como teria ir parar na minha estante, ninguém saberia, só os meus filhos, por sinal já bem  crescidinhos.  

Imaginei então minha morte em dose dupla (ainda sem uma oração definida), como a de Quincas, em razão de um pecado mortal de livro tomado emprestado há 26 anos e não devolvido! 

Várias intuições me acorreram.  Peguei a primeira, fixei-me nela.  E precisamente no dia 21 de maio, lá estava eu, contrito, tomado de vergonha alheia, devolvendo o livro ao bibliotecário de plantão. 

 

Aristides Coelho Neto, 21 maio 2026

 

PS — Vale notar que o filme de 2010, com base nessa obra, foi lançado em 21 de maio daquele ano.  O competente Paulo José era Quincas.

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