TEXTOS DO AUTOR

ATHOS PERTINENTES, UM SONHADOR NO REINO DA PENÍNSULA

Athos era assessor de Queda, da Península. Sempre agiu imbuído de boas intenções, moldadas desde o berço. Das três alternativas na hora H, escolheu a segunda.

No Glorioso Domínio da Península, que muitos chamavam só de Península, ou simplesmente gedepê, ninguém sabia ao certo a origem desse nome esquisito. Mas também ninguém se importava com isso.

Queda, o mandatário maior, sempre comparava com muito orgulho seu reino a San Marino, um país encravado na Itália, com apenas 61 quilômetros quadrados. Fenínsula era maior que San Marino. Um pouquinho só, mas era. Se a Itália tinha a forma de uma bota, parte da Península tinha a forma de uma botina de cano médio.

A exemplo das antigas capitanias hereditárias, Queda recebera o comando da Península no tempo em que se imaginava seria hereditária.  Mas logo, igualzinho ao que aconteceria também em 1759 pela ação do marquês de Pombal, a hereditariedade foi extinta. E Península estava agora numa fase de transição para república. Queda poderia até estender o seu mandato, mas se a república vingasse, ele teria de ser reconduzido ao poder pela força do voto. Por isso vivia como se fosse candidato. Em tudo e a todo momento.

Athos Pertinentes primava pela atitude pão pão, queijo queijo. Tinha formação severa e gostava de trilhar os caminhos da legalidade, da ética, do respeito mútuo, do profissionalismo. Era a favor de se punirem exemplarmente os transgressores da lei constituída. Não conseguia, porém, niente nesse sentido. Era um dos assessores de Queda, mas vivia às voltas com as trapalhadas e os projetos impulsivos deste. A avidez pela conquista de votos obnubilara os comandos neurossensoriais de Queda. Ou seja, Athos Pertinentes julgava impertinentes, totalmente e cada vez mais, os atos do governante. 

Essa corrida desenfreada pela conquista da opinião pública favorável operava ações bem singulares. Athos, diante de ações desastrosas e sempre recorrentes, resolveu dar um basta.

Athos imaginou pudesse dar um ultimátum em Queda. Este, no entanto, fez é colocar Athos na parede, aliás uma enorme parede de pedra. Aproveitando a parede reta, uma das poucas coisas retas do reino, Athos fez um alongamento preliminar, com os calcanhares colados no sólido paramento vertical. Precisava haurir forças. Respirou fundo. E pôs-se a falar. Falou, falou e falou. Um longo discurso. Declinou todos os equívocos do governo de Queda. Falou das condições em que se achava a administração do reino. Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento.

Mas Queda era duro na queda. Profundo conhecedor das leis, das manhas e artimanhas, citando Rui Barbosa — aliás, completamente desconhecido, já que nem nascido ainda era —, o supremo mandatário disse que "a acusação é sempre um infortúnio enquanto não verificada pela prova”. Aproveitando a oportunidade, Queda perguntou ainda: “O que você tem quando cruza um advogado com uma bibliotecária?”. Diante da perplexidade de Athos, Queda se adiantou na resposta: “Toda a informação que você precisa — mas você não vai entender uma palavra do que ela disser”. E se desmanchou de rir.

Não adiantou Athos falar em Guarda Federal, em Monastério Público, em Conselho Senatorial dos Anciães. A cada palavra do assessor, Queda ria, ria e ria, dizendo ser amigo tanto de escribas como de fariseus.

Até os amigos de Athos estavam contra ele. Imputavam a Athos a maioria dos atos de Queda. Athos não tinha saída — era matar-se, demitir-se, ou ser dado como louco. Essa última alternativa ensejaria aposentadoria imediata, a única vantagem.

Tresloucadamente, então, dirigiu-se para a janela.  Os observadores, que já eram muitos, pelos impropérios e pelo tom de voz, previam o pior. Um espetáculo dantesco de precipitação no ar, muito antes da invenção do ultraleve e do paraquedas. E Athos subiu na balaustrada.

Quando parecia que ia se atirar, deu um grito lancinante, que ecoou pelas redondezas. O berro de Athos Pertinentes provocou a queda de duas telhas soltas e uma revoada dum sem-número de pombos e ainda de dois urubus que estavam entre eles. Porque quase sempre há urubus infiltrados entre os pombos. Em verdade, nenhum ser humano lá de fora ouviu o clamor.

Athos, descendo do peitoril, disse convicto para surpresa de todos:

— Eu me demito.

Pronto. Athos, aliviado. Queda, livre. 

E todos se retiraram. Foram tomar um cafezinho.

Aristides Coelho Neto, 11 mar. 2009

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