TEXTOS DO AUTOR

PASSANDO BALINHAS, CHUPANDO MOEDAS

Era 1994. Implantava-se o Real como padrão monetário. Espertinhos faziam das balinhas moeda corrente.

Sabem aquela raspadinha de gelo com um corante sabor-qualquer-coisa, com um nome em inglês, que vendem em shopping?  E que as crianças adoram?  Pois é, a coisa se deu lá no shopping, em Rio Preto, interior de São Paulo.  Estávamos completando um mês de Plano Real.

O geladinho custava 80 centavos e minha filha levou um real.  Foi só chegar toda feliz com o gelo technicolor moído e o irmão quis também, o que era de se esperar.  Levei o dedo na niqueleira — meu novo acessório em novos tempos —, tirei 60 centavos, pedi para juntar ao troco da irmã, que devia ser de 20 centavos.  Achei que resolvera rapidamente o assunto, já que em Rio Preto também faltavam moedinhas.  Pois o problema começou justo aí!  Minha menina estava com algumas balinhas— esse o troco.

Empolgado com o sistema de troca, aliás, prática milenar, da época em que não havia dinheiro, não pensei duas vezes — lá fui eu com minha lógica (excessiva lógica).  Dirigi-me ao quiosque com as balas, mais duas moedas.  Uma de cinquenta, outra de dez centavos, totalizando 80 centavos.  Qual não foi o assombro da balconista, quando cheguei "pagando com a mesma moeda".  Nunca fui adepto de pagar com a mesma moeda, mas algo me dizia que naquele caso podia.

Veio a mulher do dono, achou que eu estava errado.  Veio o dono da mulher, digo, do quiosque e achou que eu queria mesmo era confusão.  Seu primeiro impulso infeliz foi recomendar à coitadinha da atendente, toda confusa com aquela singular situação, que me desse "quantas balinhas eu quisesse".

Começou a juntar aquela gente de curiosidade mórbida e os profissionais do gelo acabaram aceitando o padrão monetário que eles próprios instituíram.  Só que não fiquei muito convencido de que entenderam... Ficaram me olhando assim, assim, sabem?, querendo ver pelas costas aquele complicado freguês.  Na ânsia de que outros que me rodeavam me compreendessem, eu perguntava súplice:  —  Não acham que tenho razão?

E todos disfarçavam, como quem não quisesse se envolver.  Poderia sobrar para eles alguma coisa que não sabiam ao certo.  Poderiam ser obrigados a chupar balinhas também.  E podiam ser diabéticos, sei lá!

Sensação de frustração, essa que me abateu!  Vontade de pedir ao ministro Ricúpero para oficializar  logo essa prática e  mandar cunhar balinhas com todos os valores.  Não  usou a  bala-moeda, você chupa, em caso de necessidade ou de emergência! Logicamente vai haver moeda-bala vencida, moeda diet também.  Bala-moeda para tapear fumante.  Bala-moeda falsificada, o que é pior, e outras inúmeras modalidades criativas.  Até aposto que daria menos complicação.

Por enquanto, recomendo usar a moeda-balinha só no mesmo estabelecimento que lhe passaram dela como troco — é não oficial, mas em franca utilização.  E isso se você tiver muita paciência, pois pode deparar com a situação de ter que convencer os espertalhões que, das duas uma — ou têm cabeça dura, ou se fazem de ingênuos nesse interessante troca-troca, que só vale na direção do bolso deles.

Aristides Coelho Neto, ago. 1994

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