TEXTOS DO AUTOR

TOMOU? TOMOU

Com cronograma não se brinca.

A voz de Clarisse estava visivelmente alterada. Era perceptível na ligação. Ouvia-se de jeito claro a respiração ofegante, nervosa. A caixa estava aberta, sim, informara o Joaquim. Mas o que interessava era decifrar as subtrações. Valeria saber se o que continha o acondicionamento daria ou não margem a definir se sim ou se não.  Joel não tinha o que dizer. Preocupava-se também. Como descobrir? Dava pra entender que Clarisse não se empenhasse pessoalmente e agisse de forma remota, já que morava praticamente na Cochinchina. Da casa dela até o trabalho pegava um metrô e dois ônibus. Até ali, o foco do problema, muito maior a distância. Sim, dava pra entender.

Imaginaram então fazer a contagem, reportando-se ao início da semana.  Chamaram André para agir. Ele veio o mais rapidamente que pôde. Deixara as compras no carrinho quando recebeu o telefonema. E olhe que já tinha esperado trinta minutos na fila. Largou tudo. Pegou um táxi. Antes teve de passar na casa da tia Dirce para pegar a chave reserva. Droga! Ela não estava! Foi achá-la no cabeleireiro. Tia Dirce saiu de cabelo em pé, mas acompanhou André até sua casa. Chave na mão, eram quase 17h30. Subiu esbaforido as escadas e adentrou o ambiente. Tia Amélia fazia tricô, ou pelo menos tentava, aproveitando uma réstia de sol que apontava para as agulhas. Feito o procedimento, a contagem revelou haver dezoito. Só que faltava o controle inicial. Por que Antonina não ficara atenta?  E por que Joel não usou das prerrogativas previstas? se tinha acesso a todos os dispositivos? Agora não adiantava mais. Nada de evidenciar problemas. Em busca da solução...

O gato dormia. Como confiar no relato de um gato que só assistia, impassível? Se bem que gatos não fazem relatos. Ainda mais aquele, preguiça pura. Antonina resolvera apelar para a memória desde o dia em fora com Tia Amélia, mesmo em dia de chuva fina, atrás do produto. Do que valia lembrar de sol ou de chuva, de dificuldades outras, se a principal dificuldade se insurgia inclemente? Tantas pessoas envolvidas, tantos protocolos, tantos treinamentos, tantas hipóteses descartadas, para quê? Não chorar o leite derramado? Negativo! Era hora de se debulhar em pranto, sim! 

O automatismo muitas vezes leva a acidentes. Em tudo há necessidade de concentração, para evitar arrependimentos, remoía a tia Dirce, pensando nas consequências que adviriam. Antonina passava mal. Tia Dirce, cada vez mais ansiosa. André ligou para Joel. Joel, para Clarisse, com a cabeça totalmente oca de ideias. 

Até que surgiu uma luz no final desse túnel — as câmeras, as câmeras! Nunca haviam precisado, mas a emergência se fazia presente. André saberia como acessar o disco rígido das gravações. Foi quando descobriu que não havia HD em nenhum local da casa de Tia Amélia. Foi o vizinho que informou que todos os dados ficavam na empresa de monitoramento. As horas passavam inexoravelmente.  André ligou para a empresa. Os encarregados das gravações indagaram se poderia ser na primeira hora do dia seguinte. Novos telefonemas foram dados. A decisão unânime era de que as gravações eram para ontem. 

E assim foi feito. De posse dos arquivos magnéticos, André ligou para Joel. Joel ligou para Clarisse e Joaquim. Clarisse ligou para tia Dirce. Joaquim foi para a igreja agradecer — era super, hiper, ultrarreligioso. Alívio geral. Antonina havia, sim, dado o comprimido de Naprix 10mg para tia Amélia. E na hora certa. Ufa!

Aristides Coelho Neto, 24 fev. 2020

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