TEXTOS DO AUTOR

QUANDO ESCREVER DÁ ALÍVIO

Considerações sobre as estratégias de arejar a alma e desopilar o fígado.

O "quero me desabafar" levou-me aos dicionaristas — amigos de todas as horas — Aurélio e Houaiss. Uai, sô, desabafar é pronominal também? Pois é, isso mesmo, é também. Vivendo e aprendendo. Nunca usei desabafar-me, desabafar-se. Mas não quer dizer que nunca desabafei.

Desabafo é "franca expansão de sentimentos e pensamentos íntimos". De certa forma satisfação de "um desejo que estivera impossibilitado de se realizar", "desafogo, desopressão". Botar pra fora. Exemplificando, você desabafa uma criança (no sentido de desagasalhar), você desabafa o peito com um suspiro, desabafa o ambiente. Em meio aos sentidos mais requintados, quero me fixar no desabafar de uma dor, de uma paixão. Desabafar as mágoas... E existem formas e formas de desabafar — seja com a família, com o amigo, com o psicólogo, com pessoas que você nem conhece, e até com o próprio envolvido naquilo que oprime você. Há também pessoas especiais que transformam a sua opressão em arte. Sublimam.

Semana passada fui devolver um pacote de carne moída que ficou branca depois de lavada. O líquido resultante era puro corante. E lá fomos ao supermercado com o famigerado pacote e o líquido vermelho-falso acondicionado em um vidro. Imaginei meu desabafo no derrubar o estande da entrada, enquanto usava o extintor para quebrar as vitrines, sacando todas as frutas e latas das fileiras debaixo das pilhas. Os produtos rolariam por sobre o chão num delírio primata jamais experimentado. A tevê seria chamada, além da polícia, quando eu teria a chance de desabafar midiaticamente para a cidade toda, quiçá para o Brasil inteiro. E a falcatrua e o desabafo seriam alardeados aos quatro cantos nas redes sociais.

Possivelmente impregnado da leitura de Sapiens, de Noah Harari, fica bem claro para mim que nosso tempo de Australopithecus já se foi há dois milhões de anos. Na qualidade de Homo sapiens, temos a obrigação, pelo título conquistado, de domar nossos instintos. Contentei-me em desabafar com o gerente, que tudo fez para amenizar a questão. Não me convenceu. Mas ouviu minhas afligidas abobrinhas todas, contidas pelo meu Status sapiens. Essas pressões morais do cotidiano me levam muitas vezes a escrever. É uma estratégia que me satisfaz. Quando publico, sei que o texto segue ao vento. Não vai encontrar os implicados. Sem contar que hoje em dia o texto vai encontrar poucas pessoas que se dedicam à leitura. Ou que se sensibilizem com o seu drama (que a gente sempre julga enorme, maior que o de todo mundo). Mas não me importa. É um recurso para as minhas frustrações.

É comum essa necessidade de verbalizar sobre algo que incomoda. Assim é que muitas pessoas se valem da redação de um texto (a ser publicado ou jogado na gaveta), da arte de maneira geral. Vêm daí pérolas preciosas de pintura, literatura, poesia, música — ou até mesmo de música sertaneja moderninha (argh!).

Quando o psicólogo Bruno Ricardo Almeida fala de "arte como forma de sublimação", ele esclarece que é "processo pelo qual a energia psíquica não aceita socialmente é direcionada para atividades e realizações aceitas socialmente". E "alguns se tornam grandes escritores, músicos e artistas por sua capacidade de sublimação".

Relembremos Noel Rosa, cujos baques emocionais produziam desabafos musicais singulares. E este a seguir é especial. No começo dos anos 30, Francisco Alves já havia gravado muitos sambas de Noel Rosa. Este pagava o carro que havia comprado de Francisco Alves com composições e favores musicais. Um crediário que não tinha fim.

Estavam, certo dia, Noel e Cartola em um banco do Largo do Maracanã, pensando em como conseguir alguns cobres para umas cervejinhas no Café da Uma Hora. Surge na esquina o abastado e pão-duro Francisco Alves. Claro que nega o pedido de grana dos dois, de forma nem tão delicada, mesmo que ficasse claro tratar-se apenas de um adiantamento. Eis que o artista consagrado propõe que os dois amigos necessitados de dinheiro façam dois sambas por 100 mil réis...  Sentaram-se à mesa de um bar ali perto. As composições deveriam ser imediatas. Alguns incidentes já tinham acontecido com Noel e Francisco Alves. Este demonstrara ser sovina, sistemático, direto demais, divergindo totalmente do jeito simples daquele Noel, da Vila, da vida, da noite, boêmio, aéreo. Sua notoriedade de longe se comparava ao do Chico Viola.

Assim é que, por pura necessidade, surgem dois sambas ali, na hora: Qual foi o mal que eu te fiz? e Estamos esperando. "Para a mulher amada? Aparentemente, apenas. Na verdade, obra-prima de sutileza e duplo sentido, o samba é dirigido ao próprio Francisco Alves. E relata, com melodia simples, mas bonita (e em versos feitos às pressas, mas exatos), o episódio que os três, Noel, Cartola e Francisco Alves, acabam de viver aqui [ali]". Por trás de "palavras fingidamente inocentes" — informam Máximo e Didier em Noel Rosa, uma biografia —, as letras têm Francisco Alves como alvo. E os dois autores biógrafos dissecam vários versos-desabafo, dentre eles: "Estamos esperando, vem logo escutar o samba que fizemos pra te dar. A rua adormeceu e nós vamos cantar aquilo que é só teu e que nos faz penar..." E o que se segue é um desafogo danado, que o destinatário acaba gravando, sem perceber que era todo para ele próprio.

Diferente esse desabafo. Tiro certeiro. Na mosca. Com arte.

Aristides Coelho Neto, 12 abr. 2019 

NOTA — Sobre Cartola e Noel, ver Noel Rosa, uma biografia (de João Máximo e Carlos Didier). Brasília: UnB, 1990. pp. 253-254. O samba Qual foi o mal que eu te fiz?, de Cartola e Noel, ao ser gravado apareceria com o nome só de Cartola. Os direitos autorais, de Francisco Alves. Noel era totalmente desprendido.

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