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IMERSÃO DIGITAL — DOS EFEITOS NO CORPO E NA ALMA

A triste realidade do uso irrestrito de smartphones — seus efeitos nocivos físicos, sociais e emocionais numa geração de incautos.

Me preocupa sobremaneira a questão de as pessoas hoje se acharem tão "conectadas". Grande parte delas está conectada, sim, mas com um mundo virtual e fantasioso, em detrimento do mundo real, esse em que se nos impõe sobreviver. Insisto nesta tecla e as pessoas olham para mim com um olhar misterioso que não consigo decifrar...

Sabemos que internet e tecnologia digital são apenas ferramentas. E que cabe a nós utilizá-las da maneira correta, assim como a enxada que serve para cavar ou para agredir, como o liquidificador que tritura frutas ou corta o dedo do usuário desavisado, como o carro que transporta e dá conforto, mas que também mata pela imprudência de quem o conduz. Não resta dúvida de que estamos nos permitindo enveredar por um caminho bizarro e perigoso. Novas tecnologias são como novas substâncias que ingerimos  — só seu uso nos dirá mais tarde dos seus efeitos. É processo empírico! Isso mesmo!

Não é de hoje que a realidade dá sinais de que algo grave vem acontecendo com os nativos digitais, aqueles que nasceram e foram criados a partir da década de 1980, na era dos games e da internet. Série de reportagens de 2014, de Jorge Macedo e Sandra Kiefer, no jornal Estado de Minas, apontava que "muitas crianças e adolescentes nunca estiveram tão desconectados do mundo".  E essa dependência virtual já há algum tempo vem se tornando problema de saúde pública, quando mais e mais pessoas com net addiction procuram tratamentos especializados.  São usuários que padecem de insônia, apresentam queda no rendimento escolar, comportamento antissocial. Hoje, novo elemento se juntou aos sintomas — a depressão.

Estudos desenvolvidos em Harvard, Oxford, Cambridge e Manchester dão conta  que as novas gerações estão dormindo duas horas a menos, em média, na comparação com períodos anteriores. Um dos motivos é o efeito da luz azul (blue light), emitida de forma quase imperceptível pela maioria dos aparelhos de tela, que "impede" o usuário de desligar os equipamentos (ver edição de 25.5.2014 de Estado de Minas). Dizem os cientistas que, ao chegar na retina, a blue light dá um sinal para o cérebro interromper a produção de melatonina, que faria essa pessoa começar a ter sono. Na verdade, essa substância é um comando para o corpo de que está na hora de descansar.

Chamou-me a atenção a recente matéria "A hora 'h' da geração do iphone" (VEJA, 23 jan. 2019, p. 70), de Filipe Vilicic. A questão, logo de cara, é bem equacionada pelo ilustrador Caio Borges na p. 71 — a garota deitada fazendo um selfie; os amigos no piquenique, cada um com olhos grudados no celular, alheios à natureza; o cara do skate com celular na mão em meio à performance radical; o pai que empurra um carrinho de bebê olhando o celular, e o bebê também com seu celular; o sujeito que fotografa um rapaz que lê um livro, coisa rara que contrasta com o comportamento hoje padrão; o casal que se abraça, sem concentrar-se no ato, mas sim no celular, quase uma traição... Uma questão bem desenhada e a cores — relações tête-à-tête esquecidas... com inevitáveis e esperados efeitos colaterais. Faltou o enfoque da sujeição a acidentes pelo desvio do foco da atenção.

Antes de ler o texto da Veja, eu havia conversado sobre o assunto com uma oftalmologista.  Ela recentemente fez curso de atualização em oftalmopediatria. O efeito hipnótico da telinha, a exposição exagerada à luz concentrada, não há dúvida, repercutem de forma nociva no cérebro, na emoção, na sociabilidade. Mas eis o que os médicos estão descobrindo na área específica da oftalmologia — criança que fica muito tempo no celular, se tiver predisposição a ser míope, isso vai acelerar o processo. Sem contar as interferências no sono; sem contar a pouca exposição ao sol; sem contar os problemas de coluna, vem ainda a aceleração do crescimento do globo ocular. "É a questão do foco, restrito à imagem de perto, com reflexos diretos na miopia em quem tem tendência...", pondera a médica Marina Elisa F. C. Oliveira.

As sugestões dos médicos para uso de celular variam. Há quem diga — até 2 anos, nada de celular; de 2 a 7 anos, meia hora por dia; de 7 a 12 anos, uma hora no máximo por dia. Pensem agora se tais parâmetros se ajustam ao tempo que suas crianças têm passado com jogos, filmes e redes sociais. Os excessos estão gerando problemas de sociabilidade, depressão e o pior, muitas vezes — suicídio. E mal sabem pais, tios e avós que as crianças estão a exigir a mesma coisa que veem os adultos fazendo. A palavra convence, mas o exemplo arrasta. E o que pode não trazer malefícios para um adulto pode trazer marcas profundas para uma criança.

Voltemos à matéria de Veja. A psicóloga americana Jean Twenge, em seu livro iGen, fala das mudanças no comportamento dos jovens a partir do fim da metade do século 20, com base em pesquisas com 11 milhões de adolescentes ao longo dos anos. Nascidos no período 1946-1964, 1965-1981, 1982-1995 apresentam diferenças singulares no comportamento. Melhor, porém, nos fixarmos na geração nascida no período 1996-2012. Esses jovens iniciam a vida sexual mais tarde, têm pouco contato físico com outras pessoas, são menos religiosos, aceitam melhor as diferenças de gênero, etnia e orientação sexual, mas — pasmem! — declaram-se muito solitários.  A tecnologia digital tem participação direta nisso. E não é a tela que é culpada, mas sim o que vem através dela. "O abuso dos aparelhos eletrônicos não só leva ao vício comportamental como deixa seus usuários melancólicos."

Cabe aqui transcrever o que diz o psicoterapeuta Tom Kersting (segundo Vilicic, André Lopes e Jennifer Ann Thomas, a equipe de Veja), ao comentar a imaturidade da geração atual —  "É uma juventude que não quer saber de trabalhar, que começa a sair agora das faculdades sem preparo para isso e que nem sabe como se portar em uma entrevista de emprego. São recém-formados que parecem conchas vazias, que ficam até 2 da madrugada no Instagram, dormem pouco e até acordam cedo, mas para verificar de novo o Instagram".

Algumas famílias andam se preocupando em, no momento de conversar, colocar todos os celulares em uma caixa. Isso é bom! Aliás, tentar conversar sem buscar o Google ou vídeos e ilustrações na internet, é excelente exercício de comunicação e expressão. Outros já estão percebendo que o ato de substituir dispositivos eletrônicos, de videogames a smartphones, por esportes, estudos, serviços comunitários, diminui consideravelmente a depressão (ver p. 76).

Penso que o despertamento necessário  para essa questão, que parece trágica, tende a demorar um pouco mais, o que trará ainda notícias chocantes e calamitosas.  Há venenos que curam, conforme a quantidade aplicada.  Cabe a nós todos definirmos o que é veneno e o que é benesse no pacote de "facilidades" que as novas tecnologias trazem. E estabelecer limites. A dosagem certa para que os venenos possam curar e não destruir tanto o corpo como a alma indica atenção e cautela, mais pé no freio que no acelerador.

Aristides Coelho Neto, 25 jan. 2019

PS - "Alma", no texto, é recurso retórico, metáfora para dizer que além das implicações físicas existem implicações na dimensão emocional, envolvendo psiquiatria e psicologia.  
 

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