ACENDENDO LUZES

Portas fechadas

Em prejuízo próprio, jamais o pensamento religioso conseguiu libertar-se de concepções inibidoras, impostas irremediavelmente pelo dogma.

De Richard Simonetti (do livro Temas de Hoje, Problemas de Sempre, 6. ed. – jun. 1993, p. 61. Ed. Espírita Correio Fraterno do ABC)

Ante a profusão de fenômenos mediúnicos registrados no Novo Testamento, não apenas no apostolado de Jesus, mas também no trabalho dos discípulos, a evidenciar que a primitiva comunidade cristã estava familiarizada à prática de conversar com os “mortos”, surge a pergunta— por que cessou o intercâmbio?

A teologia ortodoxa costuma apregoar que passada a fase da revelação, com o Cristo, e a de expansão e testemunho, com os apóstolos, não havia necessidade daquelas manifestações (tomadas à conta de intervenções do Espírito Santo).

Sem dúvida, o Plano Espiritual participa ostensivamente de todos os grandes eventos religiosos, como se o Céu procurasse chamar a atenção dos homens, preparando-os para receberem a sua mensagem. E neste particular o Espiritismo situa bem a sua condição de Revelação Divina, já que foi precedido e ê caracterizado pela manifestação dos Espíritos.

Isto não significa que o intercâmbio com o Além somente aconteça nessas oportunidades. O homem sempre conversou com os “mortos”, desde que começou a fazer uso da razão. Nas culturas mais primitivas temos notícias dessas relações. Já no tempo de Moisés, marcado também pela fertilidade mediúnica, cujo fruto maior foi a Tábua dos Dez Mandamentos da Lei, houve tantos excessos que o grande legislador se viu obrigado a proibir a evocação dos Espíritos.

Após Jesus, passada a fase dos grandes sacrifícios e dos grandes testemunhos, seria natural que perdurasse a comunhão com o Plano Invisível. A palavra da Espiritualidade Superior é orientação indispensável a qualquer movimento religioso, a fim de preservar-lhe a pureza e a autenticidade, mantendo-o fiel às suas origens e finalidades.

A fim de compreendermos por que cessaram as manifestações, é preciso recordar com Kardec que, para entrarmos em contato com os mentores do Além, devemos elevar-nos moralmente até eles, proporcionando-lhes condições para que venham até nós. Ora, justamente o contrário foi o que aconteceu com o Cristianismo, a partir do século IV, quando Teodósio I o proclamou religião oficial do Império Romano, facultando a criação do sacerdócio organizado e o aparecimento do profissional da religião.

Ser religioso já não era uma vocação, mas muito mais uma profissão, esquecidos os ideais de Amor e Fraternidade exemplificados por Jesus, ante os crescentes interesses em torno da política e do poder.

O exercício da mediunidade foi, então, desestimulado, primeiro porque as manifestações legítimas de orientadores espirituais contrariavam as ambições em jogo; segundo, porque com a desintegração da pureza inicial, os médiuns, sem apoio e sem disciplina, eram assediados por obsessores que provocavam grandes tumultos. Os médiuns passaram a ser os endemoniados, criaturas possuídas pelo diabo, que precisavam ser exorcizadas. E como as fórmulas verbais e o ritual não apresentavam nenhum resultado, adotaram-se práticas mais drásticas como a tortura e a morte. Na Idade Média era comum mandar-se o médium para a fogueira, a fim de libertá-lo do demônio. Que se consumisse o corpo — dizia- se — mas que a Alma fosse salva.

Em verdade, jamais cessou o intercâmbio. A mediunidade é uma faculdade inerente ao Homem e o instrumento através do qual ele recebe a contribuição maior da Espiritualidade, em favor de sua evolução. Sempre houve e sempre haverá indivíduos mais sensíveis, psiquicamente, capazes de sentirem mais intensamente a aproximação dos Espíritos e agirem sob sua inspiração ou influência.

Entretanto, difundida a crença de que o era o demônio que se manifestava, e a prática de tortura ou matar os médiuns, a fim de “libertá-los” estes trataram de esconder ou sufocar qualquer experiência mediúnica, o que era natural.

Em prejuízo próprio, jamais o pensamento religioso conseguiu libertar-se dessas concepções inibidoras, impostas irremediavelmente pelo dogma.

Foi por essa razão que, em meados do século XIX, encontrando as portas das igrejas fechadas, os Espíritos buscaram a mediunidade fora delas, a fim de oferecerem aos Homens o Consolador, o Espírito de Verdade, que vinha, segundo a promessa de Jesus “ensinar todas as coisas e recordar tudo o que Ele falara”.

Surgia, assim, o Espiritismo, que, reinstituindo o intercâmbio com o Além, dava uma nova dimensão às práticas mediúnicas e oferecia à Humanidade uma visão transcendente da Vida.

Richard Simonetti

Nota de revisor10 — a menção a “séc. IV” e “Teodósio I” revela discrepâncias entre a edição de 1983 e outras mais novas. Mas a versão atual do texto foi submetida ao próprio Richard Simonetti em ago. 2015, por e-mail.

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