TEXTOS DO AUTOR

AZUIS E VERMELHOS

A dicotomia azul—vermelho teve sua época de acirramento em Brasília nos tempos de Joaquim Roriz. Na caça aos vermelhos valia de tudo. Até golpe abaixo da cintura.

É em Parintins que se vê até anúncio de coca-cola azul. Isso na parte da cidade adepta do boi Caprichoso. Propaganda de coca vermelha, só nos bairros que morrem de amores pelo boi Garantido. É o festival folclórico do boi-bumbá, uma festa azul & vermelha, dividindo a torcida não como uma  Belfast, de católicos e protestantes, não como uma Jerusalém de judeus e palestinos, mas de forma interativa, fraterna e alegre de esquecer os problemas, de seduzir o turista, de brincar pelo prazer de brincar.

Essa era a dicotomia na época de Roriz em Brasília — os azuis e os vermelhos. Mas nada de folia e festival. A rixa era coisa séria. Essa forma simplória  de ver o mundo colocava no mesmo saco vermelho petistas, comunistas, oposicionistas e, obviamente, todos os que não se afinassem com Roriz. Quem não era azul, só podia ser vermelho. Papai Noel chegou a ser encarado com restrições pelos azuis.  E ensaiaram mudar a vestimenta do bom velhinho, pelo menos no Distrito Federal.

O jornal Correio Braziliense, comandado por Ricardo Noblat, era visto como vermelho. Criatura azul que se prezasse não deveria ser vista com esse jornal debaixo do braço. Só com o Jornal de Brasília... aí sim.

Havia uma tendência à não-utilização do vermelho em vestuário, à exceção de roupas íntimas. Calcinhas, sutiãs, cuecas, anáguas, sem problemas, lá escondidinhas, últimas camadas. Quanto a brinquedos, bem... nunca soube que os azuis se afetassem com objetos infantis da cor vermelha.

Felizmente também não se importavam os azuis com as cores da natureza em tons de vermelho. Conforme o contexto, é claro. No tocante à alimentação, tomates, pimentões vermelhos, melancias, goiabas, framboesas, caquis, cerejas, acerolas, morangos sempre foram tolerados pelos seus valores nutritivos.   

Claudete era uma estranha no ninho azul. Sorriso largo, simpatia a toda prova, conversa agradável, competente, ela era um tanto avessa aos eventos dos azuis, sempre em campanha.

Pelo fato de usufruir de um cargo comissionado no governo, comprava as camisetas de propaganda partidária — não havia jeito —, mas não as usava. Relutava em sair às ruas empunhando bandeiras. Havia tanta gente pra fazer isso! Por que justo ela?

Até que um dia, depois de muita análise, Sônia foi direta com Claudete: “Você é vermelha”.

Imediata e evidentemente, Claudete, em resposta, ficou vermelha. Ruborizada.

“Por que você diz isso?”, retrucou Claudete.

“É que eu tenho feeling”, emendou Sônia.

E Sônia iniciou uma marcação cerrada. Acompanhava pessoalmente os convites feitos a Claudete para bandeirar pela rua, para distribuir santinhos e outros panfletos. Ligava para a casa de Claudete para lembrar do caminhão de som que passaria pela sua quadra. 

E um dia até conseguiu botar Claudete, toda tímida e constrangida, em cima de um trio elétrico azul. Claudete ficou no cantinho, com os dois dedos para cima em “v” de vitória, como todo mundo fazia. Não gostou. Não gostou mesmo.

Para Sônia, havia algo no ar em torno de Claudete. E Sônia precisava descobrir, mas estava difícil...

Foi quando Sônia, um dia, encaminhou contrita suas preces diretamente aos seus santos azuis.  E a inspiração veio, com cor e tudo — inspiração azul.

Ligou para Claudete como se fosse do Instituto Soma. “Boa tarde. Somos do Instituto Soma e esta é mais uma pesquisa de opinião. A senhora vai votar em quem?”  Claudete não titubeou, pobrezinha. Usou de toda a sinceridade: “Cristovam Buarque”.

Ufa, que alívio para Sônia. Cristovam Vermelho! Vermelho! Vermelho! Enfim o bilhete azul para Claudete. E em três dias, cartão vermelho — a publicação da exoneração no diário oficial. Que tristeza para Claudete. Mais ainda por receber rosas vermelhas, com um cartãozinho jocoso assinado: “anônimo”.

Aristides Coelho Neto, 22.3.2009 

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