TEXTOS DO AUTOR

JAMIL, GALILEU? QUEM JÁ ME LEU?

Quem me lê, quem já me leu? Que impacto tem o que escrevo? Ou escrever é prazer maior mais para quem escreve do que para quem lê? Conjecturas, conjecturas...

Já há algum tempo eu ficava olhando para uma pilha de quatrocentos exemplares de Estágio no Planeta Terra que estavam mofando em meu escritório. Até que resolvi distribuí-los de graça, tanto pelos correios, quanto pela rua, quanto em minhas viagens. Sempre quis lugares bem distantes, por esse Brasil afora.  Selecionei endereços e parti para as correções... Correções? – vocês vão perguntar. Sim. Quando se é inexperiente, marinheiro de primeira viagem, a gente pensa que é auto-suficiente. Não imaginei que precisasse de revisor à época. E paguei um preço alto por isso. Prescindir desse tipo de profissional, o revisor textual,  para corrigir e criticar, só dá em arrependimento. E com um livrinho cheio de erros, depois de impresso não há mais o que fazer. É chorar ou relaxar. Mais de uma dezena de errinhos em páginas corrigidas uma a uma. Quatrocentos livros. Isso pra falar só dos erros crassos. Podem me chamar de abobalhado e sistemático, não ligo. Só depois de corrigidos à mão, os livros foram distribuídos.

Aprendi muito, corrigindo meus erros. De “independente” para “independentemente”, de “taxado de anta” para “tachado de anta”, de “à medida em que” para “à medida que”. De tanto corrigir não há como não gravar o que é certo indelevelmente na memória. O maior erro porém não foi de português, mas de física, geografia, sei lá, um erro de grande escala. Eu disse que a luz percorre 9,6 bilhões de quilômetros em um ano. O certo é 9,5 trilhões. Imaginem a dimensão desse deslize. Ignorância cósmica essa minha. Amigos diletos disseram condescendentes: “Não se preocupe, ninguém de nós vai percorrer nem um pingo dessa distância... e você não é luz!”. O que mais me magoou foi alguém dizer que não sou luz. Quem não se chateia...

Os quatrocentos exemplares ou seguiram pelo correio para instituições selecionadas ou foram distribuídos em postos de pedágio, para transeuntes, para grupos em excursão, bibliotecas, escolas, policiais, gafieiras, estudantes, saraus, academias, cantores de rua, colegas de trabalho, centros espíritas, praças da primeira, segunda e terceira idade, concursos de misses, bases de mísseis, estações espaciais orbitais (brincadeirinha esses três  últimos...).  Desenvolvi uma técnica de abordagem que não permite recusa do freguês –  “Você conhece alguém que goste de ler?” é a pergunta. Não tem erro. A pessoa sempre conhece alguém, mas para não ficar chato ela diz: “Eu mesmo gosto muito”. E esboça um sorriso, às vezes amarelo.

Talvez você me pergunte se alguém me deu retorno quanto ao que continha o livrinho. Digamos que ninguém! O universo de quem dá retorno é tão pequeno que nem merece ser mencionado. Daí nos questionarmos: escrever é um prazer solitário; se derem algum feedback, melhor, é lucro.  Virginia Woolf disse isso de outra maneira: "Escrever é que é o verdadeiro prazer. Ser lido é um prazer superficial".

Zinho, outro amigo, fez uma brilhante ponderação quanto a ser lido. Quando a gente coloca nossos textos na internet, há de se ter cuidado e muita estrutura psicológica, pois a frustração pode ampliar-se. E explica: pouquíssimas pessoas lêem nossos textos, nossos livros. Quando você os divulga na rede mundial – que tem um alcance inimaginável – muito mais pessoas deixam de ler o que você escreve. Aumenta o universo dos que não dão a mínima para o que você bota no papel. Ou na web. Sábias palavras. Hehehe.

Aristides, 18.12.2008

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