TEXTOS DO AUTOR

A VISÃO DE ZECA, UM SONHO A MAIS

Em Melbourne, na Austrália, ao sair de um teatro, os frequentadores encontraram seus carros com os pneus furados e os para-brisas besuntados de cocô.

Zeca adora um noticiário. Na noite em que a NET ficou sem sinal por doze horas, teve de se contentar com os canais abertos. Estranhou paca a limitação.

O que mais tem preocupado Zeca é a violência que impera nos telejornais de quaisquer emissoras, no fundo no fundo, um retrato do mundo real. Apesar de muitos dizerem que as coisas boas que acontecem não dão ibope.

No último sábado especialmente, Zeca resolveu fazer seus apontamentos sobre cada notícia veiculada. Um estudo estatístico doméstico.

Quase não acreditou no que via.

Em Melbourne, na Austrália, ao sair de um teatro, os frequentadores encontraram seus carros com pneus furados e para-brisas  besuntados de cocô. Especialistas informaram tratar-se de cocô de canguru. Quem assumiu a autoria do atentado? Nada mais nada menos que adeptos da televisão que detestam teatro.

Em Alto Paraíso, Brasil, o confronto entre fitoterapeutas e homeopatas foi só parcialmente coberto. O que a tevê mostrou mesmo com detalhes foi o tratamento alopático — para tristeza de ambos — que os dois feridos receberam no hospital da região.

Em Santiago de Compostela foi um deus nos acuda. Um padre franciscano e outro beneditino chegaram às vias de fato ao discutirem sobre uma frase que teria sido dita pelo papa Francisco.  Vias de fato para padre resumem-se em alteração do nível da voz, nunca levantar o cajado de peregrino.

Em Goiânia, duplas de cantores trocaram impropérios na avenida Anhanguera, perto da antiga rodoviária, revelando acirramentos nunca dantes imaginados em torno dos temas música de raiz, sertanejo moderninho e sertanejo universitário.

Em Miskolc, na Hungria, foi lamentável o embate de dois mágicos em torno da discussão sobre o que era melhor — baralho de papelão ou baralho de plástico.

Na praça central de Tampere, na Finlândia, a rotina de domingo foi modificada sobremaneira por dois grupos exaltados. Pessoas, aparentemente até bem-educadas, com obturações de amálgama de prata destratavam outras com obturações de resina. Uma delas chegou a aplicar uma anestesia na perna de outra que esbravejava, o que provocou evidente descompensação na hora de fugir da tropa de choque, aliás muito chique.

Perto de Huánuco, no Peru, os óvnis que se mostraram até sumir por trás da colina de Marabamba provocaram furor e reações inusitadas. Crentes e descrentes se enfrentaram até serem abduzidos, mas pela polícia da comunidade.

Ou seja, Zeca só anotara manifestações de desamor e violência em seus apontamentos.

Para ele só houve um caso que contrastou com os demais. Imagens da torcida no jogo entre Atlético-PR e Vasco revelaram flagrantes insólitos.  Eram torcidas perfeitamente integradas, num clima de confraternização nunca visto. Alguns comentaristas até disseram que eram cenas “fortes” de torcedores atleticanos dividindo seus sanduíches e garrafas de água mineral com os vascaínos. Outros ofereciam flores aos que ali compareciam com uniforme de adversário. Afinal, eram companheiros de ideal. Balinhas eram atiradas de baixo para cima. Arroz era jogado de cima pra baixo nas arquibancadas, como a selar um casamento tanto promissor como perfeito.  

Nada de polícia. Pra quê? diante dessa explosão de cordialidade?... Mas policial que se preza tem de estar atento a tudo. E um deles, preocupado com um saco suspeito abandonado num canto da arquibancada, chamou o comandante do batalhão. A área foi isolada. Um robô foi acionado. Depois de meia hora de suspense, conseguiram saber o que continha o pacote — flores, confetes,  cartões de natal pequeninos que seriam jogados por sobre as cabeças de todos ao final do jogo, fosse qual fosse o resultado da partida.  

A cena tanto chocou Zeca que ele quase caiu da cama, ao emergir do sono profundo em que estava.

Aristides Coelho Neto, 12.12.2013

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