TEXTOS DO AUTOR

REVISÃO TEXTUAL, VÍCIO SOLITÁRIO

Se hoje o revisor não é solitário pelas novas possibilidades de integração, ele é solitário pelo fato de não poder repassar o seu trabalho a outrem, nomear procuradores, prepostos, com raras exceções.

Muitos se perguntam se revisor é figura necessária mesmo. E surgem várias digressões sobre esse misterioso ser, o revisor. Poxa, um cara que vive de descobrir falhas nos trabalhos dos outros... deve ser muito infeliz.  Aquele tira-dúvidas a quem todos recorrem... Aquele que escolhe se fica melhor assim ou assado...  Aquele que “dá uma olhadinha” no seu trabalho final. Aquele que enriquece um texto, deixando-o redondo, agradável, digerível. Aquele de que se vale o Luis Fernando Verissimo, jogando acentos, vírgulas, pontos, tudo para cima, caiam onde quiserem, que o revisor resolve. Não, não quero enfocar aqui qual a importância do revisor.

Assim como as más línguas dizem que o arquiteto é o sujeito que não conseguiu nem ser artista nem engenheiro, sabiam vocês que dizem também que o revisor é aquele – que atolado no seu escritório com um montão de livros – não conseguiu ser professor ou escritor?... Boa essa! E ferina!

Mas queria mesmo enfocar neste texto a questão da solidão do revisor textual.

Com a palavra-chave “trabalho solitário” no Google, cheguei ao texto que está em  http://revisaoparaque.com/blog/vida-de-revisor-2/revisor-de-texto-um-profissional-solitario#comments. Nele, Carolina Machado explora o tema de como as pessoas imaginam o espécime revisor no seu hábitat. “Uma pessoa de olheiras profundas, óculos de aros grossos, sentada atrás de um computador ou de uma pilha de papéis”. Realmente, ao ler isso, passei os olhos ao meu redor. Decidi que, no máximo, na segunda-feira, vou reorganizar meu escritório, que está um lixo. “Rondam as cabeças ideias de que nós revisores trabalhamos isolados do mundo; em nossa bolha de gramáticas e ortografias”, afirma Carolina.

O elucidativo texto trata da mudança do perfil do revisor nos últimos anos com o advento de novas tecnologias e ferramentas rápidas. E de como os revisores descobriram formas eficientes de interagir com colegas de profissão. A figura do revisor de carteira assinada apresenta-se rara. Parece que a tendência é o freela, que trabalha em casa ou em espaço compartilhado com outros profissionais, o coworking. No link lá de cima, são interessantes os comentários de Maria da Conceição Vieira, dizendo do mundo que se abriu ao revisor com os dicionários eletrônicos e a imensidão da internet, que aproxima, e facilita a integração revisor/cliente. Adentramos a era da instantaneidade.

São esclarecedores também os comentários de Hedy Lamar no blog citado: “Os momentos de solidão, aqueles em que estamos à frente do computador, lendo, analisando, avaliando, refletindo e, finalmente, revisando, retocando, reelaborando frases, orações, períodos, consultando dicionários, normas diversificadas, etc., esses são momentos essenciais e próprios de muitas áreas de atuação, não somente a dos revisores. Quem opta por uma atividade intelectual sempre terá que dedicar parte do seu tempo a essa espécie de isolamento”.

Pois bem, não é exatamente nessa ótica do isolamento e solidão que quero me fixar. Quero mencionar o trabalho solitário em outro sentido — o de não poder transferir a incumbência da revisão a outrem.

Se nos propuséssemos a fazer empadinhas para vender, poderíamos rapidamente ensinar uma pessoa a nos ajudar, no caso de encomendas grandes. A transferência dessa tecnologia é fácil. Se sou um vendedor de carros, posso vender um ou mais simultaneamente, sem que isso afete a qualidade do meu trabalho. O trabalho intelectual da revisão, porém, é diferente.

Se aparecem dois ou três trabalhos ao mesmo tempo, raramente o revisor pode delegar poderes a outrem. Claro, há exceções, casos de excelente relação de confiança. Porque a missão contratada da revisão é minuciosa e muito pessoal. Costumo dizer que o revisor varre a rua do texto com pincel e não com vassoura... E eu varro do meu jeito, dosando a visão crítica de acordo com o cliente.

Assim, se hoje o revisor não é solitário pelas novas possibilidades de integração, ele é solitário pelo fato de não poder repassar o seu trabalho, nomear procuradores, com raras exceções. Quando penso na possibilidade de explorar como manda o figurino uma fan page no Facebook, fico a me perguntar: se eu “bombar” na mídia, e aparecerem vários trabalhos ao mesmo tempo, como encarar?

Nesse aspecto, quase esgotado o aspecto da solidão, pega mal alardear sobre a sua capacidade de trabalho e oferecer nada mais que silêncio ao cliente, que quer eloquência, e resultado. Não acham? Só pra justificar que, pensando bem, vou continuar sem marketing mesmo. Estou numa fase de intensa preguiça, se querem saber a verdade.

Aristides Coelho Neto, 28.3.2012

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