TEXTOS DO AUTOR

A MÃEZINHA DO JUIZ

Em professorinha, o diminutivo inho-inha indica redução no valor moral, intelectual, profissional. Mas ser professorinha no Brasil indica também falta de capacidade financeira. Ou seja, toda professorinha é mal-remunerada...

Faz dois meses que ando com o danado do sufixo "inha" na minha cabecinha. É que dra. Átima, uma advogada pra lá de arrogante, chamou — não sei se por um átimo —, minha amiga Lucinha de professorinha. No que acabei de escrever esta frase,  minha esposa pediu pra que eu passasse na cozinha, que arrumasse um lugarzinho na geladeira para o docinho. Só não disse geladeirinha. É "inho" e "inha" pra todo lado. Tenho curiosidade de saber se é só brasileiro que abusa do diminutivo.  Bem, vamos tentar nos manter no tema. Átimo, além de porção mínima, quer dizer momento, instante. Então, neste átimo, quero deixar claro que Átima chamava Lucinha de professorinha.

As palavras evoluem. Criam-se expressões novas, usam-se velhas expressões com novas significações, modifica-se a grafia das palavras. Porque a linguagem é viva, dinâmica. O homem muda e a linguagem muda com ele, obviamente.  A professora Fernanda O. Marconi da Costa deixa isso bem claro na web, quando prefacia seu texto  sobre os diminutivos na língua portuguesa.

Intuitivamente, vocês sabem que os diminutivos nem sempre indicam miniaturização, diminuição de tamanho. O morfema "inho(a)" para indicar diminutivo é o principal da língua portuguesa. Existem muitos outros e a gente vai lembrar fácil nestes exemplos: populacho, casebre, porciúncula, padreco etc. E obviamente professoreca.

Um montão de coisas deste texto vêm de apropriação indébita do material da professora Fernanda Marconi. Dependendo do jeitão de você usar os diminutivos, e dependendo do contexto, eles são como camaleão — podem significar várias coisas.

O mais interessante disso tudo é que na linguagem falada, coloquial, inho e inha nem sempre têm o sentido de diminuição — indicam manifestações da emoção e de intenções mais ou menos veladas do falante. Vai depender do contexto.  "A garota quietinha lá no canto (imobilizada)." "Tomou um remedinho e sarou (o problema não era tão grave)."  Basta pesquisar, para encontrar os mais variados significados para o sufixo "inho(a)".  Mas, entendam, isso nem sei se vem ao caso. E nem é o tema.

Estou encafifado é com o fato de a rude dra. Átima se referir a Lucinha como professorinha... Nessa acepção, revela ironia, desprezo. Não se trata de diminuição de tamanho da Lucinha — ela tem 1,68m, não é baixa, baixinha.  Por falar em baixar, Lucinha, agora, descasada, na condição de professorinha, terá mesmo é de baixar seu padrão de vida.  Lucinha, assim inha, a gente explica — os diminutivos nos nomes imprimem um significado carinhoso, sentimental, de ternura, de que é nosso, do nosso aconchego, gente boa, da gente.  Professorinha, não! É termo da dra. Átima para soar antipático mesmo, num sentido que agrega o preconceito quanto a essa "profissãozinha" sem importância.

A dra. Átima parece ignorar que advogados, juízes, pedagogos, médicos, padeiros, policiais, psicólogos, dentistas, engenheiros, presidentes, líderes revolucionários, cientistas, veterinários, e vai por aí, todos passaram na infância por uma "professorinha". Que lhes deu os fundamentos da sua educação, quiçá as primeiras noções de respeito, de ética, de moral.

Mas o mais importante veio na danada da audiência. Dra. Átima era advogada da parte contrária. Lucinha estava com seu advogado, mas estava reflexiva, receosa da conversa que teria com o juiz. O que ele perguntaria? Deixaria que ela falasse tudo que precisava? Poxa, juiz é coisa que a gente não vê a toda hora. Um ser distante, assim, assim, como que de outro planeta.

Mas o juiz foi muito simpático. Compreensivo. Humano. E deixou escapar até detalhes de sua intimidade. Quais detalhes?, vocês podem perguntar. E eu respondo na lata: a mãezinha do juiz era professora.  Claro que, em momento algum, ele chamou a mãe de professora com "inha".  

E dra. Átima ficou então bem caladinha nessa audiência. Nos seus olhos, vagueza. E  cara de corrimão.

Aristides Coelho Neto, 30.5.2017

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"Um preconceito é uma opinião não submetida à razão." — Voltaire

 

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