TEXTOS DO AUTOR

IMERSÃO DIGITAL VERSUS CAROÇO DE JACA

Um contraponto às teorias convencionais sobre a má utilização dos recursos viciantes da tecnologia digital.

Um grupo crescente de pesquisadores acha que estamos cada vez mais distraídos. Além do déficit de atenção, mais emburrecidos por causa do leque de alternativas digitais. Incluam-se os celulares, cada vez mais multitarefeiros. Incluam-se  seus similares, e também videogames, e ainda navegação na web, seja lá pelo meio que for.  Bem, os psiquiatras estão cada vez mais se especializando em transtornos advindos de exageros na forma de se comunicar ou de mergulhar no universo virtual. Há pessoas que atribuem à internet a sua falta de capacidade de fazer leituras pesadas, como faziam antes. Outros falam em alteração do cérebro. No entanto, outros mais dizem que o cérebro pode se recompor a qualquer momento dessas metamorfoses que chamam de provisórias.

Vemos de tudo nessa área, em que pessimistas, cautelosos e otimistas dão sua opinião. 

Há autores que, diante disso, antecipam um novo período de trevas, quando os indivíduos hoje crianças e adolescentes se tornarem adultos. “Em vez de mentes juvenis inquietas e repletas de conhecimento, o que vemos nas escolas é uma cultura anti-intelectual e consumista, mergulhada em infantilidades e alheia à realidade adulta”, afirma Mark Bauerlein, autor de The dumbest generation (A geração mais estúpida). (Revista Época, out. 2011)

Bauerlein não está sozinho nisso. A jornalista Maggie Jackson, outra autora crítica da tecnologia, sugere que os mais jovens estão acostumados, por culpa da internet e do uso de celulares, à leitura desatenta de textos cada dia mais breves e estilisticamente mais pobres. Os 140 caracteres que se podem escrever no twitter, ela acredita, geram pensamentos máximos de 140 caracteres. Parece exagero, diz a revista Época, mas alguns estudos mostram que há motivo para preocupação. Uma consultoria chamada Genera divulgou um estudo alarmante sobre os efeitos do uso da internet entre os jovens. A empresa entrevistou 6 mil pessoas da geração que cresceu usando a internet e concluiu que as coisas estão mudando radicalmente. “A imersão digital afetou até mesmo a forma como eles absorvem informação”, afirmam os pesquisadores. “Eles não leem uma página necessariamente da esquerda para a direita e de cima para baixo. Pulam de uma palavra para outra, atrás de informação pertinente.” Há professores que não conseguem mais que seus alunos leiam um único livro do começo ao fim, mesmo nos cursos de Literatura. (op. cit.)

Não vou cansar o leitor com outras considerações a respeito do tema. E não vamos navegar por outras visões críticas e díspares. 

O mais importante para mim neste texto é o antídoto ao mergulho nefasto nesse mar.  Passe no shopping e observe quantas pessoas estão conversando da maneira tradicional e quantas estão de olho no celular. Observe a quantidade de pessoas que estão atravessando a rua magnetizados pelo celular sem enxergar os carros. Observe o número crescente de pessoas teclando ao volante.

Os conselhos para sair desse labirinto são muitos. Fazer um esforço para não ficar o tempo todo plugado. Evitar fazer várias coisas ao mesmo tempo. Dizem que o cérebro tem dificuldade para multitarefas. Treinar a concentração — isso elevaria a produtividade.

Acho válidos os conselhos. Mas queria compartilhar uma experiência muito profícua de substituição do celular por uma operação de desmonte de uma jaca dura.

Existe jaca dura e jaca mole. Quem nunca destrinchou uma jaca não imagina como o trabalho é altamente benéfico ao cérebro.

A primeira coisa a se observar — é muito mais comum vermos uma pessoa atravessando a rua consultando um celular que carregando uma jaca dura. Óbvio concluir que a utilização da jaca é menos nociva à saúde que o uso sem critério e demasiado de celular. Ou melhor, os benefícios da jaca são muitos.

Muitos nerds vão perguntar como carregar uma jaca se não existe um plug na jaca. Vamos explicar com muita paciência que carregar aqui não é no sentido de abastecer de energia elétrica, mas de transportar uma carga, no caso, a jaca.

O mais difícil é explicar para um viciado em jogo eletrônico, whatsapp, face,  instagran o que é jaca. Ele conhece laranja, maçã e quiuí. Jaca, jamais! 

Vamos então ilustrar com essas jacas aqui do lado esquerdo.

A jaca, além de pesada, é grudenta. Depois de abri-la, antes de retirar os gomos, você deve embeber as mãos em óleo de cozinha. Isso evita grudar. Dizem que o Homem-Aranha chegou a usar jaca para se grudar nas paredes.

A retirada dos gomos é trabalhosa, mas você pode ir conversando com a pessoa que estiver ao lado. Fale de coisas variadas, de cinema, de deputados, de próstata.  Ao retirar os caroços (cada gomo tem um caroço), é necessário retirar os elementos que sutilmente os ligam ao material principal da jaca, o gomo. Como uma ligação entre espírito e perispírito.

Muitos consideram os caroços muito mais importantes que a polpa dos gomos. É que cozidos, se assemelham à castanha portuguesa. No meu último desmonte de jaca, contei 340 caroços.

Depois dessa aventura — quem sabe façanha —, as pessoas olham para você de forma diferente. E a sua autoestima dispara.

Ao apreciar o caroço cozido, muita gente faz um sinal de aprovação. Quanto aos gomos, muitos aos provarem cospem. Outros adoram.

Mas o importante é que do ato de botar a jaca na bancada até servir gomo e caroço, leva mais de três horas. É exatamente o tempo que você deixou de ficar navegando na web, jogando, mandando mensagens bobinhas.

O fato de o caroço assemelhar-se à castanha portuguesa traz um bem-estar indizível. A economia feita acarreta um sentimento de que você levou vantagem, uma satisfação que agita o seu cérebro em cima, embaixo, dos lados e no centro. Neuroplasticidade, arquitetura do cérebro e processamento de informações passam a ser conceitos secundários. 

E você fica pensando que ficou até mais inteligente.

 

Aristides Coelho Neto, 10.1.2017

 
 

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