TEXTOS DO AUTOR

PROMOÇÃO DAS ARÁBIAS

Promoção fora do comum? Melhor pensar duas vezes nos desdobramentos... A passagem aérea é só um detalhe, um pequeno detalhe.

Suzete não acreditava! No monitor, bem na sua frente, a promoção inusitada — Amsterdam, por 200 dólares. Ida e volta. O período — começo de agosto. Não titubeou, oportunidade única! Ou vai ou racha! Detalhar a viagem? Ora, depois, depois... Seria o próximo passo. A ordem era aproveitar a promoção. Erro do sistema? Não importava. Embora fosse madrugada, ligou para a amiga dileta. Com cartão bloqueado, só apelando para o da amiga. E duas passagens foram compradas, Suzete e o namorado, Carlinhos, iriam conhecer Amsterdam. Compra feita. E pronto!

No trabalho, adiantaria as férias, embora de antemão soubesse que o chefe não iria gostar. Já o Carlinhos, estava começando no emprego novo, depois de seis meses desempregado, batendo cabeça. Em caso de ter de escolher, dane-se, a promoção em primeiro lugar. Divorciada, Suzete tinha dois filhos. Ficariam com a avó. O cachorro e a gata, tinha de dar um jeito.

Mas que hotel danado de caro esse de Amsterdam! Seria a época? Com essa Suzete não contava. Pensou em economizar em outras coisinhas. Bem, o seguro de viagem era imprescindível; assistência médica, não havia como viajar sem ela. Mama mia, passaporte vencido...  Cara, essa taxa para tirar passaporte emergencial... Não era oportuno, mas Carlinhos quis porque quis fazer a coroa do pré-molar 25. Como ir para Amsterdam desdentado? Suzete aproveitou a chance da black friday e comprou umas roupinhas. E por que não uma sobrancelha definitiva? Carlinhos, vaidoso, não ficou atrás. Um casaco, uma ceroula, um botinão de viagem. Crediário é para essas horas.

Que maravilha os canais de Amsterdam, os pubs, a cerveja, a casa de Anne Frank, o palácio real, a casa de Rembrandt, o Vondelpark,  o museu Van Gogh, os sex shops, o Red Light District, aquela ausência de subidas e descidas, tudo plano para bicicletas aos milhares. Quando via um gatinho em alguma janela (holandês adora janela) ou um cãozinho a passear, Suzete lembrava de Lulu, seu cachorro que teve de ficar no Brasil em um hotel para animais. A avó não pôde cuidar, por problemas de alergia. Ficou só com as crianças. O único problema de levar as crianças para a escola é que teria de ser de táxi. Poxa, táxi está o olho da cara.  Caros,  esses hotéis para bichos... Já a gatinha Dalila, teve de ficar com uma amiga. Essa amiga não cobrou nada. Claro que ganharia um presentinho vindo da Veneza do Norte. Afinal, embora não pareça, gata dá trabalho e requer atenção para não entrar em depressão.

Os quinze dias passaram de forma célere. Viva o velho mundo. Viva a tecnologia! Suzete e Carlinhos usaram pouco o celular para chamadas internacionais. Como são caras! Felizmente o whatsapp veio pra facilitar as coisas. Chato mesmo foi o celular de Suzete ter caído no Canal do Imperador.  Mas em Amsterdam conseguiu outro muito melhor.

Na volta, probleminhas até contornáveis na alfândega. Os vinte e cinco vibradores de encomenda não foram considerados como de uso próprio. E, claro, veio a conta. Já a taxa pelo excesso de bagagem até que foi razoável. Caramba! As companhias cobram mesmo! Carlinhos foi despedido ainda no estágio probatório de seu recentíssimo emprego. Suzete levou mais um sabão do chefe, que, por causa dessa viagem inusitada para a Holanda, perdeu dois contratos. Nitidamente Suzete agora estava na corda bamba.

Despesinhas daqui e dali, ainda bem que os empréstimos bancários estavam saindo fácil. E ainda bem que os cartões de crédito estavam renegociando as dívidas, já que agora, depois da linda viagem, ia ter de bancar também as despesas de Carlinhos, novamente desempregado.

Suzete vendeu o carro. E veio um longo período de vacas magras. Uma viagem promocional, mas a realidade já a esperara ali no aeroporto. Se faria outra viagem? Ah, não! Pensaria duas vezes nos efeitos colaterais de qualquer oferta ou promoção das arábias.

Aristides Coelho Neto, 13.12.2014

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