TEXTOS DO AUTOR

PAUL McCARTNEY, REI POR COMPETÊNCIA

O show Out There e as emoções vividas. Considerações sobre o que indiretamente o ex-Beatle está produzindo na alma das pessoas.


Estádio Mané Garrincha – Brasília – 23 nov. 2014

Ainda sob o impacto do show “Out There”, de Paul McCartney, no estádio Mané Garrincha, em Brasília, domingo 23, estou aqui pressionando a mim mesmo para escrever sobre o ex-Beatle. Antes de começar, melhor dizer que, durante as primeiras três músicas que Paul apresentou, eu estava engasgado, segurando as lágrimas, custando a acreditar que eu e ele estávamos presentes na mesma cidade, no mesmo ambiente. Mesmo espaço, mesmo tempo, ora vejam! Ao meu redor não havia só pessoas de minha idade — havia jovens e havia crianças. Prova da universalidade da música de Paul.  

Mas falar o quê sobre Paul McCartney? Que “Yesterday” é a música mais regravada de todos os tempos? com mais de 2.200 versões? Que a música é só de Paul, embora apareça por aí que é de Lennon e McCartney? Seria entrar em detalhes que já foram explorados exaustivamente na mídia. Dados biográficos, nem pensar. Há biografias excelentes já publicadas. A discografia, os dramas internos do grupo de Liverpool, as curiosidades... quem sabe.  Falar da dieta vegetariana, quando ele se decidiu por ela. Não vale a pena. Falar das 42 carretas de material e dos 280 profissionais para montagem da infraestrutura do show? Que a estrutura pesa 150 toneladas, que a montagem leva 10 dias? Que o público em Brasília foi de 45 mil pessoas?  Acho que todo mundo já sabe. 

Antes de decidir que caminho tomar, vou recordando o impacto de cada sucesso dos Beatles nos anos 60, lá em Rio Preto, onde eu era integrante de uma banda de rock. Os sucessos que tocavam nas rádios ainda AM chegavam quase ao mesmo tempo nas lojas do centro da cidade. Eram chamados compactos, simples ou duplos, em vinil. As letras não vinham com o disco. Só pra esclarecer, música e fotografia eram apreciadas de uma forma um pouco diferente da de hoje. Porque fotografar era um processo demorado, analógico. Gravar em fita cassete (K7) era novidade. Gravar em vinil era bem complicado. Entro nesses detalhes só pra se ter uma ideia do impacto de um compacto (rimou) novo com um sucesso que estava "bombando" na Inglaterra e no resto do mundo.    

Por falar em letras das músicas, o disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foi o primeiro disco no mundo a vir com um encarte com fotos e com letras das músicas. Eu cursava o pré-vestibular em São Paulo quando esse álbum chegou às lojas e às rádios. Para mim e para tantos outros, o som era incomum, completamente diferente do que se havia ouvido até então. A Time classificou o álbum como “uma partida histórica no progresso da música”. Alguns foram mais longe — era um marco, o rock de antes do evento era um, o rock de depois do evento Sgt. Pepper’s era outro. O que se disse mais — "cultural, histórica, esteticamente significante", "uma aventura inultrapassável em conceito, som, composição, arte da capa e tecnologia de estúdio pelo maior grupo de sempre de rock and roll", "o mais importante e influente álbum de rock and roll já gravado"...

Pois é, Paul estava lá como coautor e partícipe, no esmero para que a nova produção revolucionasse o meio musical. O mesmo Paul que dividiu o espaço comigo e outros milhares de fãs ou simpatizantes no Out There... Não vou falar de Lennon, George e Ringo, porque, simplesmente, o tema escolhido é o Paul, de quem estive mais perto. O Paul, 72 anos, com um preparo invejável. Com sua voz ainda firme, aquela de amplitude alta, de tons agudos que, na maioria, não alcanço.

Bem, dito isso, pergunto: Paul é bendito? benfazejo? Qual o nível de generosidade desse tal de James Paul McCartney? além de compositor, cantor, virtuose, multi-instrumentista?

Vocês podem pensar que estou falando da sua simpatia, da sua forma de deixar as pessoas que o rodeiam à vontade. Mas não. Estou me dirigindo para outra vertente de pensamento.  Nós, cristãos, sabemos qual a receita a seguir quanto ao nosso próximo. Temos como meta disseminar o bem, sendo benevolentes, respeitando as pessoas, as diferenças, levando alegria, consolo, otimismo a quem necessita, ou seja, fazendo o melhor para quem nos surgir à frente, como se fosse para nós mesmos — essa a regra áurea. E temos muitas pessoas assim (felizmente), como se fossem missionários, cujas mãos espalham benesses incontáveis.

Pensem agora no seguinte. Independentemente das rotinas de vida de Paul, da sua personalidade, do seu caráter — que só conheceríamos em profundidade se convivêssemos com ele —, falemos de resultados diretos e indiretos de seu trabalho.

É o momento de vislumbrarmos a alegria e o bem-estar que Paul McCartney (e muitos outros, claro, talvez numa menor dimensão) promove para milhões de criaturas — crianças, jovens, adultos e velhos — neste planeta.

O que quero dizer é que embora uma pessoa não tenha sido na vida uma Madre Tereza de Calcutá, ela pode levar o bem de forma diferente para um sem-número de criaturas.

Ora, o bem que se faz tem gradações, tem o seu alcance proporcional. E uma coisa é beneficiar milhares. Outra coisa é beneficiar milhões.

O contentamento, o regozijo que Paul McCartney me trouxe em 50 anos de música, se me fez muito bem, fez também a outros milhões de pessoas.  Quero ressaltar, finalizando, que tudo isso é contabilizado na balança divina.

Então, obrigado, Paul McCartney. Você vai colher o que plantou. E plantou bem. You are the guy!

Aristides Coelho Neto, 27 de novembro de 2014

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