TEXTOS DO AUTOR

MAUS POLÍTICOS MERECEM PERDÃO?

Obrigação de perdoar os maus políticos? Ou outro alguém vai cuidar deles?

Dia desses falei sobre as aberrações com que frequentemente nos deparamos no rádio e nos telejornais — as atitudes de muitos de nossos políticos. É o nosso dia a dia, já conturbado constantemente, sendo poluído pelas notícias sobre desonestidades.

Num texto calcado em informalidade, eu falava hipoteticamente de que para conhecer as instalações do Congresso só deveriam permitir pessoas maiores de vinte e um anos... Fazia alusão, obviamente, a uma casa que não tem dado bons exemplos nos últimos tempos. Mal sabem eles, os políticos, que nossos atos nefastos têm um peso na balança divina quando atingem poucas pessoas. Esse peso é diferente quando aquilo que fazemos atinge negativamente milhares, milhões de pessoas. Regra de três simples.  

  

Política e Honestidade: caminhos opostos?

Havia lido texto de um publicitário que usa o cognome de Zinho, postado em seu blog Ninguém Perguntou. O autor afirmava que  “no Brasil, perdura o hábito de perdoar muito e exigir pouco de nossos governantes" (os políticos estão incluídos). Dizia mais, que "quanto mais perdoamos, mais nos afeiçoamos a eles e nos dispomos a perdoar cada vez mais, como se o mau político fosse uma espécie de cachorrinho travesso”.

Esse texto me levou a uma reflexão sobre o perdão. E sobre até onde vai nosso dever de perdoar indistintamente. Cristo sempre enfatizou a necessidade de exercitarmos a virtude de perdoar como condição sine qua non para que o Pai Criador também nos perdoe. Ao exaltar a misericórdia que devemos utilizar para com quem nos ofende, o Mestre deixa claro que toda mágoa retida impede que as nossas preces alcancem o objetivo.  Quantas vezes perdoar? Metaforicamente, Jesus menciona “setenta vezes sete vezes”. Quis na realidade dizer quantas vezes forem necessárias. Saber perdoar, assim, seria o termômetro que indicaria o quanto somos desenvolvidos espiritualmente. Ou o quanto ainda temos de caminhar na senda evolutiva.

Nas constantes contendas com escribas e fariseus, Jesus deixou claro que aquele que tem autoridade moral pode e deve tentar conduzir de volta aos trilhos aquele que erra. Assim, perdoar não tem o sentido de “não corrigir”. O Mestre, em muitos momentos de sua trajetória, deixa claro que não se deve mesmo é alimentar ódio destrutivo por aquele que nos ofende. E sabemos que isso nos prejudica sobremaneira, já que as somatizações decorrentes do ódio são visíveis e significativas. É que o veneno que destilamos contra alguém nos envenena primeiro.

Frequentemente nós cristãos pedimos a Deus que perdoe as nossas faltas. Mas sabemos que a prece não esconde as faltas de quem quer que seja. “Aquele que pede a Deus o perdão de suas faltas só o obtém se mudar de conduta”. Bem lógico, não acham?

Voltemos, então, aos políticos que, de forma recorrente, cuidam do seu próprio bem em detrimento do bem de todos, utilizando-se maliciosamente de seu cargo e de seu prestígio, nadando em privilégios e sempre querendo mais. No fundo, no fundo eles ainda não sabem o que fazem, por mais que cinicamente pareçam saber. Estão acumulando dívidas que só serão anistiadas por meio da adoção de uma nova postura, e do resgate até o último ceitil. O meu dever de cristão é não me revoltar — eles são irmãos de caminhada, em processo de evolução, e responderão pelos seus atos.

Não me julgo, porém, na obrigação de perdoá-los — o principal cuidado que há de se ter é não imitá-los. Quem vai perdoá-los é a Suprema Justiça, na hora exata, se merecerem e fizerem por onde.  Enquanto isso, posso, sim, exercer meu papel de cidadão, não compactuando com atitudes erradas — difícil é não nutrir qualquer rancor, mas essa é a postura correta —, e denunciando, quando for o caso, se isso constituir interesse coletivo. Imaginem o que seria de nós se a imprensa a isenta não mais se aventurasse a desvendar falcatruas e divulgá-las... Não digam que a justiça dos homens não é necessária. Não há cristão que prescinda da segurança pública, por exemplo, confiando somente na providência divina.

E lembremos sempre da eficácia da prece, não para que aconteça um milagre que transforme políticos em pessoas dignas, mas para que a Luz da compreensão espiritual os envolva e os faça refletir sobre a Justiça Divina, que tarda mas não falta. E os faça refletir sobre a sábia e reconfortante Lei de Causa e Efeito, dádiva de um Pai Misericordioso, infinitamente justo e sábio.  E que, dizem, está sempre de olho. 

Aristides Coelho Neto, 7 out. 2010

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