TEXTOS DO AUTOR

A ABOMINÁVEL POLISSONOGRAFIA E OS ELETRODOS DE AMANDA

O que Amanda fazia debaixo dos lençóis a pretexto de verificar os eletrodos? E por que a taça na mão?

Dirceu chega às vinte em ponto. Se apresenta na recepção, travesseiro embaixo do braço, uma sacola com revistas. Não lhe sai da cabeça a recomendação de não usar esmalte colorido. Ridículo isso.

Olha de esgueio os pacientes que certamente se submeteriam aos exames. Passar a noite na clínica. Claro que sem acompanhantes. Dirceu divaga. Reflete sobre a diferença entre clínica e motel. Motel sempre admite acompanhante. Aliás, sem acompanhante é horrível, muito sem graça. Dirceu tem cada uma! Ele apenas divaga enquanto espera. Se não fosse pelo convênio, a polissonografia custaria 800 reais. Mais que um hotel cinco estrelas. Olha só que preço! e para dormir mal, pensa.

Eram pessoas de vários tipos na saleta. Algumas pareciam cansadas. Outras, descrentes. Olheiras era o que não faltava. O pessoal do ronco devia estar lá, com certeza.  Dirceu se lembra do casal que conhecera certa vez. Ele com problemas de ronco, ela com problemas de insônia. Só ele necessitou de tratamento. Ronco de companheiro produz insônia na companheira.  Em quartos separados, a vida dela mudou, e ela se tornou uma pessoa feliz. O que prova a relatividade do conceito de felicidade. Bastou isso para ela. Silicone no ouvido também pode resolver. Divórcio, em último caso.

Dirceu se recorda ainda do Zé Newton. Nas viagens de equipe, ninguém queria ficar no mesmo quarto. Zé Newton roncando apresentava os decibéis de uma serraria em pleno funcionamento. As paredes tremiam em magnitude discreta na escala Richter. Bem, Dirceu exagerava ao contar esse caso, mas era quase isso.

Dormir é muito bom

Na sala de espera, também pessoas obesas. Dirceu fica sabendo que nas cirurgias de redução de estômago existe a necessidade de investigar o sono. Nem imaginava. Será que só de pensar em comer menos perde-se o sono?

Já no quarto, a quantidade de eletrodos que recebe por todo o corpo é indescritível. Amanda, esse o nome da enfermeira, muito gentil.

Monitorado, uma vez deitado, não poderia se levantar sem chamá-la. É só apertar o botão, recomenda Amanda. Dirceu não acredita que conseguirá ficar muito tempo parado na cama.  Em casa ele é como um zumbi, da cama pro sofá, do sofá pra geladeira, da geladeira pra cama, infindavelmente...

O tempo passa e nada de o sono chegar.  Até que Dirceu dorme. Acorda com o toque suave de mãos femininas. Sem acesso ao interruptor, percebe que a luz vai se acendendo gradualmente. O quarto fica à meia-luz. É Amanda. Dirceu pergunta ingenuamente o que faz ela àquela hora embaixo dos lençóis. Ela diz estar ajustando os eletrodos. Ele não entende. É quando Amanda lhe oferece uma taça de cabernet. Bem, isso é tudo o que Dirceu quer, mas é apenas um sonho de segundos.

A noite é longa. O botão que chama Amanda é apertado para pedir água por duas vezes. Para abaixar a temperatura, outras duas. Em mais de duas vezes os fios nas pernas se enroscam. Difícil virar com aquela parafernália. Proibido ficar de bruços. Para fazer xixi e andar um pouco pelo quarto, Amanda tem de desligar o aparelho, que fica dependurado no pescoço de Dirceu. É o momento de Dirceu ter a sensação de um original homem-bomba de pijamas, que seria abatido preventivamente se nas ruas de Israel.

Às quatro Dirceu tem uma ideia. Pode ser genial. Usar uma tática que os parlamentares usam com seus pares. Se Amanda não desligasse os eletrodos, Dirceu contaria tudo que sabia sobre ela à imprensa e à polícia. Às cinco, Dirceu dorme um pouquinho. Sonha com os fios, mas acorda com o reflexo de uma luz vermelha do eletrodo da ponta do indicador. Luzinha besta. Na ponta do dedo. E se lembra do filme ET, aquele dos anos 80.  Esconde a luz embaixo do travesseiro. Sim, sim, noite muito longa.

Dirceu dorme de verdade às seis e trinta. Mas Amanda o chama às sete.

Ela tira os eletrodos e indica a porta de saída.

Dirceu é rápido. Pega o que é seu, e embica pelo corredor, travesseiro em uma das mãos, sacola na outra. Quer a sua cama, sua doce caminha sem eletrodos. E não depender de ninguém. Mesmo que seja pra não dormir — aliás, não dormir é quase melhor que o danado desse exame.

Aristides Coelho Neto, 21 fev. 2010

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