TEXTOS DO AUTOR

O QUE NINGUÉM SABE SOBRE O VOO AF 447

Muitos mistérios cercam o acidente da Air France. Só Ele acha que não há mistério algum.

O olhar da secretária de interesse denunciava que o rapaz era vistoso. Mescla de branco, negro, oriental. Tinha ar de inteligente, parecia competente. A música que impregnava o recinto trazia Gilberto Gil com “Se eu quiser falar com Deus”.

Quando ele se sentou no sofá perto da atendente, a frase musical que ecoava no ambiente era “... tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus...”

— Momentinho... — disse ela.

Imagem ilustrativa

Ele não tinha as mãos vazias. Muito bem vestido, roupa leve, pendendo para o branco, segurava alguns papéis, um relatório talvez. Ecoava agora: “... tenho que me aventurar, tenho que subir aos céus”.  

— Pois não, senhor, em que posso ajudar?

— Quero falar com Deus — disse ele, indo direto ao assunto.

— É urgente?

— Sim.

— E Deus sabe que quer falar com Ele?

— Bom lembrar que Ele sempre sabe... — o “sempre” foi acompanhado de uma expressão de leve ironia.

A moça sorriu, levemente desconcertada, entrando em seguida na sala de Deus. Em poucos segundos voltou, fazendo um sinal para que o rapaz entrasse. Ele o fez e não perdeu tempo:

— Senhor, estou aqui por causa do voo AF 447 da Air France.

Deus estava olhando pela janela, a contemplar um bem-te-vi que, pousado no peitoril, trazia no bico um feixe de capim — ia fazer um ninho por certo. Sem se voltar para seu interlocutor disse:

— O bem-te-vi foi um dos modelos que usamos para a invenção do avião. Mas ele é mais bonito que um airbus, não acha? Sente-se, rapaz — disse Ele, voltando-se e abrindo um sorriso.

— Senhor, as pessoas estão apavoradas com os recentes desastres aéreos. No caso dos brasileiros, agora já é mais da metade da população com verdadeiro pavor de avião.

— Elas se esquecem de que os acidentes de trânsito matam mais que os aéreos, não é mesmo?

— No caso do 447, Senhor, a insegurança quanto à possibilidade de não serem resgatados os corpos é o pesadelo de centenas de pessoas.

Deus levou o indicador em riste até a base do nariz, como se os óculos o incomodassem, franziu a testa, suspirou profundamente.

— Todos querem os corpos. Para quê? se os espíritos estão longe... muito longe.

— Acho que chegou o momento de nossas equipes revelarem à humanidade as falhas dos atuais tubos de Pitot que congelaram, as tais informações conflitantes de velocidade que levaram ao colapso do sistema elétrico, a questão da excessiva dependência eletrônica em certos tipos de aeronaves... Não é chegada a hora, Senhor?

Deus ouvia de olhos fechados. O rapaz parecia ter muito a relatar, como se num desabafo incontido. Quando o Senhor abriu os olhos, seu olhar dizia mais do que as palavras. Nessa hora ouvia-se a frase do Gil “tenho que calar a voz”...

— Meu querido. Eu precisava dos 228 passageiros e tripulantes aqui.  Você sabe disso. Mas ao se sensibilizar com a dor alheia, parece se esquecer disso! Por que o piloto não desviou da tempestade? Porque eu precisava dos 228 aqui, naquele momento, naquelas circunstâncias.  Você sabe quanto trabalho tivemos para reuni-los todos no mesmo voo, afastando dessa viagem aqueles que não precisariam retornar para cá agora. Há 36 anos, lembra-se da tragédia do vôo 820 da Varig? Lembra-se da causa? Um simples cigarro aceso no lixo do banheiro! Estranho, não? Das 133 pessoas a bordo, eu precisava de 122 aqui de volta. Lembra-se do trabalho que tivemos para poupar 11 pessoas? Sobreviveram como que por milagre. Mas não foi milagre, você sabe.

O rapaz ouvia atento, sem esboçar qualquer reação contrária ao que Deus explanava. E Ele continuou:

— Sei que, por você, todos os aperfeiçoamentos desenvolvidos neste Plano Superior deveriam ser repassados aos habitantes da Terra sem mais delongas. Em verdade lhe digo: há sempre uma razão para que isso não se dê dessa forma.  Os homens têm de descobrir algumas coisas por si mesmos.  Se tudo lhes chegasse pronto não haveria mérito. E todos se acomodariam.  Cada acidente tem seus desdobramentos, ensejando correção de rumos, novas descobertas, que levam ao aprimoramento da ciência e da tecnologia.  Não cai uma folha — e nem um avião — sem que eu saiba. Em tudo há sempre uma razão.

O moço, perspicaz, percebia que se enganara. E ouvia, respeitoso, acolhido pelo jeito doce e convincente de que o Senhor do Universo se valia.

— Fique tranquilo, meu filho. Confie em mim. A isso dá-se o nome de fé, você sabe! E agora prove desse bombom que ganhei na festa do Dia dos Pais. Este é amargo. Amanhã, passe aqui que você vai provar um com recheio de morango. Ó, que delícia! A vida também é assim, às vezes amarga, às vezes doce, às vezes tragédia, às vezes um show de emoções gostosas. Vá por mim, meu filho, vá por mim.

Aristides Coelho Neto, 9 jun. 2009

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Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Gilberto Gil, 1980

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