TEXTOS DO AUTOR

O BARBEIRO DESCRENTE

Como você acha que um barbeiro reage à novidade da análise mineral do cabelo?

Minha gata meio persa, meio siamesa, nunca reclamava de insônia.  Dormia o dia inteiro... nem podia reclamar.  Apenas me olhava com aquele rosto, digo, cara, impassível de gata sabida, parecendo debochar das minhas somatizações. Eu é que na verdade a imaginava insone, triste sina, como se fosse uma companheira de infortúnio. A elegância e a imponência dela, me observando a perambular pelos cômodos e corredores, num apagar e acender de luzes, sempre me sugeriu que ela pensasse que eu podia estar reclamando de barriga cheia. Eu sei, bem sei, muitas vezes a gente reclama de barriga cheia. E dá importância demasiada a probleminhas. Por falar em barriga cheia, no meu caso, sempre foi uma constante, já que meus contínuos e descarados assaltos à geladeira duram de meia-noite às cinco. Bom lembrar que gata que é gata não dá a mínima para as coisas mundanas dos humanos. Dai a César o que é de César.

Há pessoas que transformam a insonolência  num festival de criatividade. Há outras que não conseguem, não produzem nada, só querem dormir.  No meu caso, remedinhos?  Nem pensar — dão efeito contrário (o nome bonito para isso é efeito paradoxal). Já me disseram que meu problema está no interruptor, que não funciona.

Às voltas com a incapacidade de dormir, companheira inseparável, resolvi procurar um médico diferente — homeopatia combinada com medicina ortomolecular e outros que tais. Enfoque muito diferente da medicina tradicional. Dentre alguns exames singulares, há um que envolve análise do cabelo, o mineralograma, que identifica metais tóxicos e minerais essenciais no organismo.

Nos cinco dias que antecederam a coleta, tive de seguir a orientação de usar xampu neutro. Mas nesse ínterim resolvi cortar o cabelo. Quando me sentei na cadeira do salão, já fui explicando ao barbeiro: “Helio, não use nada  de creme e outros babados.  Estou usando só xampu neutro. Vou fazer um exame do cabelo na segunda”.

Ele, então, naturalmente perguntou: "Piolho?"

"Claro que não!", eu disse.

“Ué! está caindo o cabelo?”

Ao que respondi: “Não! exame por causa da insônia”.

Nessa hora ele estava completamente visível no espelho enorme. Foi interessante a expressão. Tesoura aberta numa mão, pente na outra, boca assim meio mole e torta, pulso ligeiramente bambo, rosto inclinado para baixo, olhos de canto por sobre os óculos, sobrancelha repuxada, uma mais alta do que a outra, entonação de espanto sonso:

“Tá falando sério? Insônia?! Exame do cabelo? Minha nossa! Êta mundo véio e virado. É o demo agindo na surdina na cabeça das pessoas, começando pelos pelos, em parceria com os falsos profetas.

Fiquei só pensando. Entendia um tantinho pelo menos do que o Hélio estava dizendo.

Aristides Coelho Neto, 6 out.2008

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