TEXTOS DO AUTOR

VIVENDO, LENDO E APRENDENDO

A importância da leitura na vida diária. Ler é bom para a mente. Bom para o leitor, bom para o revisor.

Optamos por citar a prática da leitura como o primeiro instrumento para um revisor, levando em conta que a escrita não pode não ser desvinculada do ato de ler. Esse conceito diz respeito a quem escreve e, por consequência, a quem revisa. “Pela leitura interiorizamos as estruturas da língua, os gêneros, os tipos de texto, os recursos estilísticos com mais eficácia que pelas aulas e exercícios gramaticais. Assim, naturalmente, a leitura ajuda a escrever melhor”, afirma Lucília Garcez.

Há de se notar que tudo que lemos incrementa o nosso repertório linguístico, desde as bulas de remédio, os manuais, as legendas dos anúncios, até os jornais, os livros, as cartas domésticas, os expedientes oficiais. Incluem-se os textos primorosos, os textos sofríveis, os textos lamentáveis – como os das salas virtuais de bate-papo (chats), dos blogs, dos e-mails e mensagens de whatsapp apressados. “Leiam o que lhes reforce as convicções. E não deixem de ler tudo que as contrarie. Porque se forem pessoas de crenças inabaláveis e de rígidas posições diante da vida, dificilmente serão bons jornalistas” é o conceito que nos traz Ricardo Noblat. Jornalistas pode ser substituído por redatores, escritores, produtores de texto. E vale a pena complementar, deixando bem claro, que escrever não é dom, mas habilidade que se conquista, principalmente pelo exercício e pelo hábito de leitura.

É de se supor que quanto mais nos ocuparmos com bons textos, mais bem influenciados vamos ser em nossos procedimentos de escrita. “Pela leitura vamos construindo uma intimidade muito grande com a língua escrita, vamos internalizando as suas estruturas e as suas infinitas possibilidades estilísticas”, reforça a linguista Garcez. O convívio com a leitura, segundo ela, contribui para a compreensão do funcionamento de cada gênero, em cada situação, para enriquecer a memória, o senso crítico, o conhecimento sobre o que se pretende escrever (quando se pretende).

A rapidez hodierna dos meios de transporte e de comunicação traz uma falsa inferência de que todo texto deve ser curtíssimo, objetivo ao extremo, em função da teoria de que ninguém mais hoje em dia lê além de uma lauda. Currículos e ofícios, atualmente, adotam esse estilo. E os incautos acabam por concluir que não há mais tempo para o livro.

A busca da aceleração e da velocidade tem influenciado sobremaneira a dinâmica dos filmes, a música, a redação jornalística, levando à concepção — questionável, a propósito — de que tudo que é lento e por demais refletido não se ajusta aos novos tempos. O leitor prescinde, então, dos livros, ou só os lê “em diagonal”. A dinâmica requintada da televisão, com seus poderosos efeitos, se impõe, de forma insinuante e despótica, em substituição ao texto escrito. Na visão do professor Jaime Pinsky, “o pensamento analítico é substituído por ‘achados’, alunos trocaram a investigação bibliográfica por informações superficiais [...], textos bem cuidados cedem espaço aos recados sem maiúsculas e acentos dos bilhetes nos correios eletrônicos. O importante não é degustar, mas devorar; não é usufruir, mas possuir apressadamente. O tempo, o tempo correndo atrás”.

Sabemos que não há livro ou texto que mereça ser lido aceleradamente, sem uma intenção prévia, em atitude despida de reflexão, a não ser que o objetivo do leitor seja exatamente esse. Para tal leitor, a televisão supre perfeitamente os seus anseios.

[...] a telinha é autoritária. Ela começa o assunto quando bem entende, faz as pausas que quer, inserindo as propagandas que deseja, determina o ritmo, diz quando e para onde devo olhar. Se não estou no poder, então, é pior ainda. Tenho que ver jogo de time de que não gosto, pedaço de novela babaca, entrevistas sem sentido, assassinatos sem conta, tudo num volume superior ao que eu suporto, mas que não tenho como regular, pois estou sem o controle remoto nas mãos. [...] quando vejo um vídeo [...] em que posso controlar algumas dessas variáveis, lido com o personagem e a paisagem imaginados por outro, emboto a minha imaginação e me curvo diante de heróis e mocinhas prontos e iguais para todos, enquanto, no livro, cada um sonha como quiser e puder. (Jaime PINSKY, 2002, em seu artigo Ler é Chato. Será?)

As pessoas, portanto, quando leem, têm em vista objetivos diversos — leitura como lazer, despretensiosa, num procedimento espontâneo, descompromissado; leitura com vistas ao preparo de uma aula, a fornecer subsídios para uma monografia, a ensejar reflexões quanto a sutilezas implícitas, ironias etc. São diferentes procedimentos de leitura.

Existe ainda um conduta específica de leitura a ser cultivada para a competente revisão textual. Numa revisão, subentende-se, foram delegados poderes ao seu agente (o revisor), para aprimorar o texto do autor. Aquele é, assim, extensão do autor. Ao mesmo tempo o revisor é leitor — o comum, o exigente, o ingênuo. Cabe-lhe então desenvolver uma forma de leitura em que atue como decisor linguístico, mas na condição de público-alvo ao mesmo tempo, desenvolvendo ainda a habilidade de verificar não só forma como conteúdo. Parece complicado, mas é como dirigir um carro — no começo parece difícil.

O leitor, seja na leitura ou na releitura, inconscientemente desenvolve “uma atividade cognitiva complexa que não obedece a uma sequência rígida de passos”, diz Garcez em Letramento, leitura e escrita. No uso consciente ou frequente, tais processos são interiorizados e automatizados, e sendo assim  não são muito claros ou conscientes, como afirma a autora. O leitor não tem poderes para interferir no texto, mas o papel do revisor é proativo — ele age sobre o texto. Daí a necessidade de o revisor trafegar com intimidade e conhecimento de causa pelos conceitos para elaboração de um bom texto, pela sua análise, pelo ato de recorrer a todos os instrumentos que dão suporte a quem quer escrever bem, assim como recorrer a outros que lhe deem subsídios.

Ricardo Noblat (em A arte de fazer um jornal diário) afirma que não existe receita única para escrever bem — que não existe sequer uma receita. Na contramão de afirmações como essa, citamos as obras Técnica de redação (de Lucília Garcez), Como escrever textos (de Maria Teresa Serafini), Não tropece na redação (de Maria Tereza Q. Piacentini), recém-lançado.

Pedindo licença a Noblat, em meio a muitas outras receitas que existem, eis também esta — lê melhor, e escreve melhor, e revisa melhor quem lê muito.

Aristides Coelho Neto

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