TEXTOS DO AUTOR

MEIO QUÊ

Termos-muleta e cacoetes de linguagem: eles "meio que" não fazem falta.

“Tenho quinze anos e meio [...]” corresponde a 15,5 anos ou quinze anos e seis meses, certo? Errado! O rapaz, autor da frase, quando a pronunciou em tom de súplica, estava usando o famoso “meio que” como sinônimo de “um tanto quanto, na realidade, um pouco, deveras, quase, chamada, podemos dizer, indiretamente”,  sei lá, a gente vai tentando traduzir pelo instinto.

“Tenho quinze anos e meio que gostaria de saber se sou feio. Segue foto.”, esse o período completo.  Quem viu a foto “meio que” deu uma enrolada para não dizer que o menino era meio que e muito feio mesmo! O ideal, para não magoar o garoto, seria utilizar uma frase otimista: “A inteligência é o meio que nos eleva quando não temos atributos físicos suficientes”.  Claro que vocês perceberam que o “meio que”, no parágrafo, foi utilizado de duas formas completamente distintas.

Não consigo conter meu preconceito quanto a esse “meio quê”.  Principalmente quando alguém exporta essa beleza da fala para a escrita. Mas a língua é dinâmica. As coisas vão mudando. As expressões novas se insinuando.  Pensei até em sugerir que a professora Maria Tereza Piacentini  —  Não tropece na língua, do Instituto Língua Brasil — diga algo a respeito dessa “meio que” novidade que está na boca do povo.  Talvez nem mereça. Da utilização do “meio que”, só tenho certeza de que a gente nunca usa “ela está meio que grávida”.  “Meio que” sugere uma coisa incerta na maioria das vezes. Porque é apenas um marcador conversacional. E todo marcador é assim “meio que” incerto, vago. Ele é vento. Não fede nem cheira.

Os chamados marcadores conversacionais fazem parte do processo de organização das ideias na oralidade, condicionados a monitoração e a maior ou menor estresse, segundo o tipo de público. Ou seja, quando você diz “é o tal negócio” —  ou “e aí, digamos assim”, “é a tal história”, “entendeu?”, “não é mesmo?”, “veja bem”, “tipo assim”, “como eu estava falando...” —, está dando a si próprio um tempo para pensar no que vai falar. Está articulando. Está orientando sua atenção ou a do ouvinte. Os marcadores são admissíveis na linguagem falada. Na escrita, geralmente, não. Esta última é mais elaborada, mais pensada.

Os marcadores podem ser inseridos no começo, no meio e no fim da frase. Formas reduzidas como “tá, né”, geralmente vão ao final. Quando esses marcadores se tornam vício, cacoete de linguagem, é hora de começarmos a nos monitorar. (ver A maquiagem que vira vício, artigo de Luiz Costa Pereira Junior)

Se o repertório do falante é simplório, reduzido, ele passa a se valer dos mesmos vícios de linguagem nas mais variadas situações. Como uma carta coringa de baralho. E os repete, como um papagaio. Claro que os efeitos não são bons na comunicação. Uma expressão que serve para tudo? Impossível.

No último dia 12, no DF Record, em entrevista que envolvia uma autoridade de segurança e o sindicato dos taxistas, o repórter perguntou algo. A resposta da autoridade era positiva, mas o  entrevistado respondeu com um marcador conversacional de início de frase assim: “Não... existe, é claro!” E o que existia pareceu que não existia. Se essa pessoa resolver sempre botar um “não” para dizer que sim, vai dar muita confusão.

Outro marcador muito em voga é o “então”. Parece que virou moda mesmo! Banalizou-se o uso. “Você pretende viajar nestas férias?”. Resposta: “Então... estou pensando em ir para São Paulo”. Argh!

Como fazer para esses marcadores viciosos não atrapalharem a nossa vida? Não sei dizer. Quem sabe nos fecharmos por uns tempos num SPA linguístico (se é que existe) para banhos de imersão em boa leitura. Ou nos internarmos na Academia Brasileira de Letras. Mas acho que não há leitos disponíveis.

Diante dos vaticínios de que o livro impresso vai acabar (adeus, bibliotecas), de que a televisão vai desaparecer   (cada um vai ficar em seu cantinho vendo o programa que desejar no seu smartphone ou tablet), estou conjecturando que a linguagem falada também vai acabar.  Todas as pessoas vão se comunicar por mensagens de texto, por whatsapp e outras gracinhas que em breve vão surgir. E os vícios da linguagem oral de que falamos vão simplesmente virar fumaça. E todos vão rir não mais mostrando os dentes. Vão apenas mandar uma mensagem silenciosa assim: “kkk”. 

Aristides Coelho Neto, 17 maio 2014

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