TEXTOS DO AUTOR

A CASA EM CIMA DA ÁRVORE E O AVÔ DILIGENTE

Tudo foi surgindo a seu tempo. A floresta, os netos. Avô empreendedor, ele é da nova turma de avôs.

Ah! essa criançada de hoje com seus smartphones... tadinhos. Se não fossem os avós como conexão entre o mundo real e o mundo imaginário, optando pela coordenação motora à insipiente ginástica virtual, a definição lúcida sobre o que é teoria e o que é prática... Ah! se não fossem esses avós.

Tudo que vou dizer aqui tem por objetivo louvar a atitude de um avô vizinho, em prol dos netos.

Cresci trepando nas goiabeiras e mangueiras que havia em nosso quintal lá no interior. Fiz casa de Tarzan suspensa. Uma carretilha facilitava o envio de provisões lá para as alturas. Que emoção! Lanchar em cima da mangueira. Menino-macaco, aspirante de Tarzan. Hoje, o máximo que consigo é fazer o neto ou a neta subir até a metade da jabuticabeira. Mesmo assim, fico de olho para que não despenquem, já que não estão acostumados. A perna de pau que construí recentemente foi um sucesso. Olhares curiosos, poucos se aventuraram experimentar.

Reprisando a minha infância, não houve grandes oportunidades de intimidade com os avós. A regra geral era o respeito, quase reverente, em contrapartida à gostosa intimidade que há entre os avós de hoje e seus netos. Posso estar errado nessa conclusão. Inferência minha, tese que diz que na maioria dos avós dos novos tempos existe um resgate do que fizeram na infância, rica de atividades essencialmente motoras. Nesse resgate o objetivo maior é o repasse, a doação para os pequenos. As dúvidas antigamente nas construções infantis ficavam restritas aos amiguinhos — uns tinham mais experiência que outros e repassavam naturalmente seu know-how, que podia variar na sofisticação. Isso dava um quê de independência. Nesses tempos de outrora, em casos excepcionais recorria-se aos pais e menos aos avós. Esse resgate de que falamos, promovido pelos avós de hoje, surpreende os netos, o que pode elevar evidentemente o status dos pais dos seus pais. E as crianças passam a adorar desfrutar dessa alegria, herança avoenga.

Abstendo-nos das minhas ilações, podemos afirmar que estudos concluíram assertivamente que os avós atuais estão mais envolvidos na vida de seus netos do que as gerações anteriores. Só conheci dois avós meus, e era assim mesmo. O resultado da pesquisa deixa felizes tanto avós como netos (vide investigação da Nickelodeon Austrália). Uma realidade nova é a de que existem hoje muito mais avós cuidando de netos diante dos novos modos de vida, em que os pais têm pouco tempo para os filhos. Avós mais presentes na vida dos netos — necessidade ou opção? Deixemos de lado essa análise.

"Na pesquisa que juntou 1.000 avós, 88% dizem que gostam de ser avós e 42% dizem que gostam mais de ser avós do que pais. Dos que prestam serviços de assistência às crianças regularmente, 71% dizem que estão desempenhando um papel maior do que seus próprios avós fizeram com eles. Como resultado, a maioria sente que tem um relacionamento mais próximo com seus netos e concorda que ajudar faz parte de seu papel dentro da família."

Eram poucos brinquedos décadas atrás. Por serem poucos, duravam muito, o que não acontece hoje com nossas crianças, mesmo porque quase tudo é descartável e reposto pelos pais muito acima da necessidade, o que cria um falso empoderamento. A criatividade para inventar brinquedos era muito exercitada nos velhos tempos. E vem os avós hoje, contrapondo-se à passividade que permeia o lazer das crianças, aliás patrocinadas pelos pais "superocupados" e sem tempo para os filhos.

Se um neto hoje decidir pela aventura de dormir no galinheiro, terá o maior incentivo dos avô — nem tanto da avó — mas nunca dos pais. Por falar em galinha, quais os netos que conhecem galinha? a não ser aquelas tetricamente imóveis, congeladas, de supermercado?

Avô é assim. Nem se preocupa em educar — isso é papel dos pais. Avós, dizem, são feitos para deseducar — é mais emocionante e prazeroso. Avós acham que as crianças merecem experimentar de tudo. E o melhor de tudo, bom lembrar, é que quando os netos começam a "dar defeito", os avós devolvem os moleques. Simples assim. Esse desapego estratégico é fundamental. Os avós são livres e assim devem ser.

Ressalte-se que nós, avôs e avós, somos excelentes professores, não tenham dúvida. Aprendemos na lida, na esteira dos anos, nos quintais, nas calçadas, por sobre as árvores, companheiras fiéis. Sonhamos de forma singular. Já acertamos muito, já erramos muito. E aprendemos, no tempo das conversas, das histórias, na varanda, na cozinha, nas soleiras, nos alpendres. Já repararam como as crianças vibram com uma boa conversa?

Tudo isso para ressaltar — ah! se não fossem os avôs hoje em dia, com essas histórias, esses causos, inventando brinquedos a toda hora para as crianças... Pobrezinhas delas, de olhos parados diante de telas de todos os tamanhos, da luz azul perversa que influi no sono e causa miopia precoce.

Mas a intenção aqui não é ficar lamentando.

Quero exaltar o que meu vizinho Jaci criou para os netos. Uma casa de madeira sobre um tronco enorme de angico, fixado em base de concreto. Como o terreno é em declive acentuado, de lá até a piscina, uma passarela no alto, presa por cabos de aço. Do mesmo ponto, a continuação em "L", provocando sensações pra lá de interessantes em crianças e adultos. Arborismo urbano, e no quintal.  

Floresta, no entanto, é elemento básico para esse esporte. E não havia floresta, o tempero indispensável para experiência tão fascinante de andar na altura das copas das árvores. Melhor já dizer que esse vizinho empreendedor é um misto de engenheiro, arquiteto, paisagista, marceneiro, encanador, eletricista, ladrilhador, redator, revisor,  assessor do padre,  inventor, mas pode ir além. Mais que os filhos, são os netos aqueles que desfrutam das invenções desse diligente avô faz-tudo.

A falta da floresta não foi empecilho para Jaci Flu, o destemido e criativo avô — ele pacientemente construiu a floresta. Levou alguns anos, mas ela está lá. Enquanto ele fazia a floresta, seus filhos faziam os usuários, ou seja, os netos. Visão de futuro, de sonho e realização. Avós de hoje são ou não são diferentes?

Aristides Coelho Neto, 11 out. 2019

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