DESTAQUES

BOM DIA, CAVALO

Dicção boa, o cavalo cinza era bem-humorado.

Perguntem para uma pessoa lá dos seus quarenta anos ou menos se ele consegue andar de perna de pau. Não anda. É possível que nem conheça.  Peça para o seu tio subir na jabuticabeira.  Nem pensar, ele só subiu em escada rolante até hoje. Trocar pneu de carro. Vixe! A coluna sofre. Melhor chamar um mecânico.

As falhas  e defeitos que o nosso corpo apresenta no correr dos anos são semelhantes a motor, lataria, chassis, suspensão, freios. E usamos de determinados eufemismos além do ordinário — "a decadência começa a partir dos quinze" é um deles. Exagero, mas consola.  O que não consola é que peças de carro são substituídas.  Nossas peças, nem todas.

Já perceberam que os dois parágrafos acima apresentam nuances diferentes. O histórico de vida de alguns pode não apresentar intimidade com atividades físicas. Mesmo na época em que não havia eletrônicos disponíveis (por não terem sido inventados) havia crianças mais estáticas do que em movimento, enquanto outras se esbaldavam nas brincadeiras que redundavam em preparo físico invejável.  Houve rebentos que aproveitaram todas as chances de exercitar sua coordenação motora. Há de se matutar, contudo, que  os anos percorridos limitam agora nossa atuação,  nosso desempenho físico. É o show da vida. Tudo normal, é da lei. Ou nos aborrecemos com isso, ou, tiramos proveito da decadência.  Eu, por exemplo, desisti de rapel, paraquedismo. motocicleta no globo da morte circense  e viagens interplanetárias. Coisas do passado, não estou mais preparado.

Na questão da audição, não estou ouvindo mais os sons dos micos que aparecem no quintal. Todos ouvem os ruídos deles, menos eu. Ou seja, determinadas frequências não me são mais permitidas. Dia desses, na fisioterapia, quando o aparelho marcava zero, soava um apito que eu não ouvia. Ato contínuo, o fisioterapeuta entrava para desligar o aparelho. Resolvi num belo dia — foi hilário — empenhar-me em acompanhar a contagem decrescente no visor. Ao dar zero, o técnico me pega todo torcido, quase caindo da maca,  ouvido encostado no dispositivo.  Isso mesmo! Mas nem assim — neca de som aos meus ouvidos.

A comparação do nosso corpo com carro, acho bem aceitável. É exatamente  assim — as peças desgastam. Com a evolução acelerada da tecnologia, de saltos inimagináveis e inusitados,  fico lucubrando quanto ao futuro próximo, carros autônomos, falando, tendo sentimentos. Defeitos incluiriam surdez, mutismo, problemas de pâncreas, não mais de platinado, distúrbios emocionais ou mais sérios. Bem, aguardem, quem viver verá. Deve ficar claro que a queda no desempenho físico não me comove tanto. Essa queda só é baque mesmo quando ouço as piadinhas da hora: "Maria, tire o titio do sol, tire o titio do jardim que começou a chover." Quem não se imagina nessa situação?

De tudo que falei, já que estamos nessa conversa tão íntima, por que não trazer aqui meu sonho de ontem? Experiência onírica que me levou a pensar sobre a diminuição do desempenho não só na parte física, orgânica, no comprometimento dos neurônios,  mas também no funcionamento da psique. Não sei se é o meu caso.

 

Estava eu cavalgando um cavalo superobediente e manso. Montava sem sela, aptidão que eu desconhecia ter, em sonho tudo acontece, seguia eu com a destreza de um jóquei.  Puxei a rédea para estacar. Foi quando o cavalo disse: "Puxe devagar, que dói". Estranhei um pouco e tomei o caminho de volta. Ao chegar ao destino, o cavalo me disse: "Quer ficar por aqui ou ali mais à frente?"  Parecia Uber. Eu respondi: "Está bom pra mim". Surpreendentemente ele arrematou, aliás com excelente dicção: "É porque eu moro naquela entrada, no terceiro andar..." Cavalo inteligente, pensei cá comigo, maroto, a ponto de fazer piada.

Ao contar o sonho a alguns amigos, um deles, engraçadinho,  comentou que ainda bem que eu acordei, que o desfecho seria internação, o cavalo no haras, não arreado na baia, eu na clínica, arreado na camisa de força. Outro foi mais além na criatividade ao dizer que era nova modalidade de dar bom-dia a cavalo...

Comentários assim não me apoquentam. Como tenho meditado muito sobre as restrições da idade, estava imaginando os anos se passando também para esse cavalo dotado de voz de locutor. A voz do cavalo me impressionou. Se um dia ele perdesse a voz com o passar dos anos, como usaria a linguagem libras, dos sinais, se equídeo não tem dedos, só cascos? Percebo  que esses pensamentos assim sensatos prolongam sempre os meus dias.

Aristides Coelho Neto, 11 set. 2019

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