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PORTUGUÊS É FÁCIL?

Acho que não. Conjugação verbal e concordância são pra lá de difíceis, a meu ver.

A noção intuitiva que tenho quanto a português ser mais difícil que outras línguas do Ocidente — como o inglês, por exemplo — pode diferir do que pensam gramáticos (tradicionais, ou mesmo gramáticos mais abertos) e os revolucionários sociolinguistas.

Coloco português, espanhol e francês no mesmo grupo, fixando-me na complexidade das conjugações verbais e na questão da concordância, já que coisas inanimadas, para nós — brasileiros e portugueses — têm "sexo linguístico" (se é que assim posso chamar).  Refiro-me ao gênero gramatical, que tanta gente confunde com gênero sexual.

Surge então a confusão expressa por um gringo americano que fica totalmente perdido ao descobrir que tábua é feminino, mas serrote é masculino, que cacau, araçá e caju são masculinos. Que fruta-pão é feminino. Que poema é masculino. E vem ainda a questão daqueles que acham politicamente correto cumprimentar a plateia com "bom dia a todos e a todas".

Roberto Leiser Baronas, em Divisão sexual-gramatical da língua (Gazeta Digital, 21 mar. 2005)  nos fala sobre a confusão de gênero. Cita Mattoso Câmara. "Diferentemente do que advogam muitas das gramáticas normativas do português, todos os nomes da língua portuguesa (substantivos, adjetivos) possuem gênero gramatical, mas só alguns possuem gênero sexual. Assim, é equivocada a interpretação que, a partir de uma relação direta entre língua e sociedade ou cultura, vê indícios de discriminação contra a mulher no enunciado bom dia a todos."

O que é ridículo mesmo é dizer: "Bom dia a tod@s". Argh!

Poderíamos até dizer que o português, o espanhol e o francês não seriam línguas difíceis,  e sim  mais ricas, ao oferecer maiores possibilidades para a literatura e a poesia — mais ricas substituindo mais difíceis, usando quase que de um eufemismo.  No entanto, aqui, abrir-se-ia espaço para falar de analfabetismo funcional. O indivíduo é tecnicamente alfabetizado, mas falta algo na sua formação para a devida compreensão de textos, deter um mínimo de repertório lexical e expressar-se de forma minimamente correta. Frequentemente ouvimos entrevistas em espanhol, de nossos vizinhos de América do Sul. Pode não ter lastro em estatísticas, mas percebo que mexicanos, peruanos, argentinos, uruguaios das classes menos privilegiadas se comunicam muito melhor que os brasileiros. A raiz do problema certamente está na educação básica do nosso Brasil. Mas retomemos o tema da "dificuldade" do português. É difícil ou não?

Era final de 1936 (talvez começo de 1937). Noel Rosa ensinando a Aracy de Almeida a letra de O maior castigo que eu te dou, concebida havia dois anos.  "Não há ninguém mais calmo do que eu sou. / Nem há maior prazer do que te ver me provocar."  Aracy teimava em cantar "não há ninguém mais calma do que eu sou". Se era mulher, ora bolas...

"— Este calmo aí, depois do ninguém, não varia, Aracy.

— Não interessa! Não vou cantar como se fosse homem.

— Mas é calmo, Aracy — insistia Noel já irritado.

— Calma!

— Calmo!"

Armênio Veiga resolveu intermediar a discussão entre os dois, para dizer que não era caso nem de homem nem de mulher, não era alguém específico. E que Noel tinha razão.

Não vou me aventurar a discorrer sobre esse tema. Melhor mesmo seria chamar Maria Tereza Piacentini para jogar uma luz à questão.  Como se Noel Rosa pedisse ajuda ao futuro, a alguém situado no tempo mais de 80 anos à frente, como forma de mudar a cabeça de Aracy.

Não tenham dúvida, ouçam a gravação de O maior castigo na web — Aracy venceu. Gravou calma.  Bom lembrar que em inglês não haveria discussão.  Calmo ou calma é simplesmente "calm". Simples assim.

Aristides Coelho Neto, 12 ago. 2019

PS — Esse caso de Noel de 1936 nos foi trazido por João Máximo e Carlos Didier em Noel Rosa, uma biografia (Brasília: UnB, 1990. P. 453).

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