TEXTOS DO AUTOR

O IMPREVISÍVEL GUILHERME

Boca azul, xixi verde... Porque amarelo mais azul dá verde. Simples.

Já faz um tempo que não falo mais "Sério? não conhece tal coisa assim-assim?...", como se meu interlocutor tivesse obrigação de saber. Isso porque acabo percebendo que a pessoa não conhece mesmo! Nem tem obrigação, claro. Por exemplo: não me atrevo mais a dizer — "Quem não conhece a música Recuerdos de Ypacaraí?" Recomendo, aliás, não se fazer isso. Seu interlocutor, se não tiver muitos quilômetros rodados, obviamente não vai saber...

Una noche tibia nos conocimos, junto al agua azul de Ypacaraí... A gente ouvia muito essa guarânia de Zulema de Mirkin e Demétrio Ortiz, na voz de Perla, Julio Iglesias, Caetano Veloso e de tantos outros. Sei lá se hoje se sabe o que é guarânia (foi falar em guarânia e o corretor do Word sublinhou — nem ele conhece!).  No Houaiss está dito que é balada de andamento lento, quase sempre em tom menor, característica da música paraguaia. Ypacaraí quer dizer Lago do Senhor em guarani. Mas, vamos sem delongas ao nosso propósito.

O que eu queria dizer é que quando ouço o termo Lago de Ypacaraí só me lembro do Guilherme. O dia em que eu estive lá no lago azul de Ypacaraí com Guilherme — nós e as nossas eleitas —,  nesse dia, por sinal, o lago não estava bem azul. A palavra azul está permeando esse texto, já perceberam. E com ela vamos dar o fecho também. Está tudo aqui na minha mente borbulhante...

Água pela cintura, ensaiei um nado na direção de Guilherme, naquele fim de tarde paraguaio, e Guilherme me alertou. "Fique aí, não se mexa." Não entendi a princípio. Acontece que Guilherme fazia o número 2 ali mesmo, no lendário, tão exaltado, romântico, célebre, badalado, inconfundível, lago de Ypacaraí. Hoje se tem conhecimento de que o lago está abarrotado de coliformes fecais, matéria orgânica, fósforo e nitrogênio. Claro, num desses itens Guilherme foi um agente direto e pioneiro.

De lá pra cá estou há décadas tentando montar as peças da personalidade do Guilherme. Não cheguei a ir aos compêndios de antropologia, sociologia, psicologia. Mas não consegui ainda precisar.

Naquela mesma viagem pela Argentina, estávamos num inédito (à época, para os hermanos) Passat brasileiro. Em certo trecho da viagem em que fomos acometidos por um ataque de pulgas, sei lá de onde vieram, paramos em um restaurante de beira de estrada. Aproveitei para verificar óleo e água.  Diante da curiosidade do dono do restaurante quanto ao que eu fazia, Guilherme respondeu que eu "estava procurando pulgas no motor". O argentino não entendeu bulhufas.

Em outra oportunidade — nessa mesma viagem na década de 1970 —, quando falávamos de carro (coche, auto) na Argentina, Guilherme não se fazia entender num determinado estabelecimento. Quando dissemos: "Fale 'auto', Guilherme, que eles vão entender", este simplesmente começou a falar mais "alto".

Acreditam que certa vez Guilherme levou peixes vivos do laguinho do Palácio do Jaburu para prepararmos? Havia problemas de superpopulação.

Guilherme é folgado? desligado? sonso? Até hoje não sei. Mas é inteligente e ardiloso quando se trata de pregar peças em amigos. Cara de pau? Nem tenham dúvidas. Ah! mas como é gentil, cavalheiro — as mulheres adoram o Guilherme. Cordato, prestimoso. Um pouco de tudo, sempre interessante.

Muitas e muitas peças o Guilherme nos pregou. Inúmeras. De tanto aprontar com a gente, óbvio, veio a sede de vingança, tão própria de seres imperfeitos como eu. Cristãos, tirem as crianças da sala, por favor.

Quando eu era criança, na época do grupo escolar e ginásio, costumávamos pregar peças nos pidões da época. Pidão é aquele que pede muito, vive pedindo de tudo que vê conosco.  Antes tenho de dizer que nós criávamos galinhas na nossa casa lá no interior de São Paulo. Vez em quando usávamos colocar azul de metileno na água delas, para evitar doenças. Mas esse mesmo azul de metileno a gente usava com os meninos pidões. Abríamos as balas toffee e inseríamos uma pitada de azul de metileno na bala. Embrulhávamos de volta. Quando o pidão pedia, lá vai bala.  Resultado — língua azul até o dia seguinte...

Guilherme era  — ou é ainda? — um pidão. Se você usasse colírio perto dele, ele pedia para dar uma pingada. Certa vez, sentado num ônibus que passaria por Belo Horizonte — seu destino —, resolveu pedir aquele comprimido que a companheira anônima de viagem estava tomando para não sentir as agruras da viagem de ônibus. Ela lhe deu. Guilherme tomou. Dormiu. Só foi acordar depois de Belô. Teve de pegar outro ônibus de volta à capital mineira.  Já classificaram o Guilherme? Desligado? Zen? Ainda não? Não se preocupem! Estou na mesma situação.

Num belo dia, Guilherme estava de saída para a mesma Belô das suas raízes. Passou em casa para deixar algumas coisas de geladeira. Eu havia, ávido de vendeta,  preparado algumas balinhas especiais para ele. Quando levei uma toffee (normal) à boca, Guilherme pediu uma. Dei-lhe várias para a viagem, devidamente adulteradas, claro.

Foi uma vingança tanto cruel  como prazerosa. Guilherme,  já em Belô, tinha a boca misteriosamente azul. E fazia xixi verde. Por quê? Porque azul mais amarelo dá verde, óbvio!  Soube que a família o levou ao urologista, que após algumas indagações sobre o que teria ingerido, tranquilizou os parentes.

Xixi verde nem me comoveu muito, mas boca azul... ah! que vingança mais incrível! Não havia alternativa a não ser o olho por olho do Velho Testamento.

Guilherme espaçoso, folgado! E amigo véio, leal e dileto, independentemente das suas convicções políticas! Possivelmente eu mude o título do texto de imprevisível para previsível.

Aristides Coelho Neto, 28 jun. 2019

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