TEXTOS DO AUTOR

CORRENDO ATRÁS DA BRASILIDADE

Retomar o orgulho de ser brasileiro, reverenciar os símbolos nacionais, e cantar os hinos... Não será tarefa fácil.

Sergio Pérez, piloto mexicano da Force India, dizia, em julho de 2014: "Depois de uma longa espera, a Fórmula 1 volta ao meu país". O último GP realizado no México tinha sido em 1992. "Quanto mais conheço o mundo, mais orgulho sinto de ser mexicano. O retorno da F-1 ao nosso país é [...] para mostrar ao mundo o que é o México e do que somos capazes de fazer", afirmou o piloto da Force India, nas redes sociais.

A fala otimista de Pérez, revestida de mexicanidade, pode parecer aquele sentimento cômodo de patriotismo, ou de nacionalismo de ocasião que nos acomete, os brasileiros, em época de Copa do Mundo.  Mas tenho que não é ufanismo do mexicano.  A independência do México é comemorada em 16 de setembro. Nesse mês inteiro (isso mesmo!) os mexicanos enfeitam as casas, os bares, as ruas. Sentem orgulho de ser mexicanos. Até o homem do realejo usa uma faixa com as cores da bandeira.

Isso para introduzir o assunto — o que aconteceu com o sentimento de brasilidade?  Meu amigo escritor e poeta diz: "O ódio comeu". Ora, convenhamos, isso já vem de algum tempo. De antes da dicotomia do ódio recém-instalada no Brasil.

Neste momento estão acirrados os ânimos quanto à obrigatoriedade de cantar o Hino Nacional nas escolas, ato prejudicado pelo monitoramento obrigatório, invasivo, preconizado pelo ministro importado, aquele que fala com sotaque. E, quem sabe, rezar nas escolas (esse assunto também tem sido atrelado ao outro). É sobre isso que vamos falar um pouco.

Até a chegada da coroa portuguesa, em 1808, não existia unidade no Brasil. Afirma Leandro Carvalho (ver Construção da nação brasileira) que até então "a população não possuía um sentimento de nacionalidade e de patriotismo". Segundo Carvalho, fator importante para tal foi a "construção da imagem do imperador do Brasil, D. Pedro II, como líder da nação brasileira, juntamente com a construção dos heróis nacionais".  A unificação territorial era fundamental.  "A partir da unificação da população é que começou a se identificar uma memória e uma história em comum — a bandeira nacional, o hino nacional, os heróis nacionais e a figura do imperador."

Foi fundamental para a construção do sentimento nacionalista brasileiro a criação do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, em 1838. "O instituto foi responsável por escrever uma história coesa sobre o Brasil, que unia seus mais diferentes povos em um sentimento de nacionalismo. Também, no século XIX, a criação da Academia Imperial de Belas Artes contribuiu para a construção da identidade nacional brasileira. Por meio de pinturas, chamadas de pinturas históricas, fatos e acontecimentos históricos fundamentais para a história do Brasil foram reproduzidos, como o grito do Ipiranga [...] transformado em quadro, em 1888 [...]."

Na fala de Carvalho, é importante este final: "A construção da nação brasileira, o sentimento de nacionalidade, de patriotismo, de civismo e a identidade nacional foram forjados por uma elite política imperial. Nesse processo, faltou a participação das camadas populares da sociedade. Esse fato explica a apatia brasileira em relação às questões relacionadas à corrupção política e à ínfima consciência política do povo brasileiro".

Ao afirmar que o orgulho pelos símbolos nacionais está cada dia mais em baixa no Brasil, em Patriotismo, um sentimento em extinção, Alexandre Fogaça e Soraia Sene trazem alguns aspectos interessantes do problema. Para o jornalista Heródoto Barbeiro, circunstâncias históricas fragilizaram o sentimento patriótico em nosso país. “A ditadura militar se apropriou dos símbolos nacionais. Então, a oposição e quem era contra a ditadura rechaçaram completamente essas demonstrações cívicas”, explica Barbeiro. Perspectiva semelhante é da psicóloga social Nanci Gomes: “Após a ditadura militar, ocorreu em nossa sociedade um movimento para abolir a expressão do nacionalismo e desvincular os símbolos nacionais do exercício da cidadania”.

O leitor Haroldo Lago, ao final do texto de Fogaça e Sene, faz um comentário, rápido e rasteiro, em março de 2014, sobre o fato de Figueiredo ter saído da presidência pela porta dos fundos, em 1985. Fala de um pilantra [Sarney] que ia receber a faixa por conta de conchavos. Lago arremata considerando que "o general tinha toda razão". E de lá pra cá "patriotismo virou 'coisa de milico'. Uma desgraça". 

Entre tantas pinceladas rápidas sobre esse pungente problema nosso, vem outra visão ainda sobre esse tema. O procurador de Justiça Roberto Liviano afirma que a ausência de patriotismo é um fenômeno que vai além de nossas fronteiras e tem a ver com a febre do individualismo. “As pessoas deixaram de colocar o interesse coletivo como prioridade, fazendo prevalecer os interesses individuais”, aponta o procurador.

É de se registrar que os estudiosos do fenômeno estão de certa forma afinados —  o sentimento de amor à pátria está em extinção por aqui. E isso não é bom, pois prenuncia problemas. Se o assunto é de real complexidade, há de se enfrentar esse tema com muita clareza e inteligência estratégica quanto ao marketing a implementar.

Dia desses recebi vídeo em que, ao falar do vandalismo e da banalização dos costumes nas escolas, o autor — entre juízos de valor generalizados e verbalização da sua ideologia particular — dizia também da necessidade de se rezar na escola.   É conveniente a escola cuidar do alimento espiritual, ou isso caberia às várias igrejas, templos, casas de fé, e principalmente à família? Ocorre que a gente tenta se livrar de uma ideologia e nos chega outra!  E, claro, da mesma forma que temos os devotos de Lula, temos os devotos de Bolsonaro.

A questão da libertinagem nas escolas parece ser uma onda um pouco diferente da de tempos passados. Trocavam-se provas na calada da noite, inventava-se curto-circuito para não ter aula, jogava-se maria-mole um no outro quando o professor se virava de costas para a turma. Hoje a sexualização chegou com força, facilitada pela internet e pela falta de controle em casa, pela família. Aliás, Educação no Brasil sempre deixou a desejar nas últimas décadas — o descaso para com ela é evidente. O país é grande territorialmente, os ratos abundam, a sagacidade é enorme, em detrimento do coletivo. E o ralo é imenso, por onde escoa o pudor e o dinheiro público. 

Esse pessoal que faz da escola uma latrina exigiria professores como o Diego, lá de São José do Rio Preto, agora entre os dez melhores educadores do mundo.  Com a evolução (ou involução) dos costumes, há de se ter competência para conter cenas de lascívia e vandalismo que comparecem nos vídeos que denunciam a libertinagem nas escolas.  Ignoro se Diego Mahfouz Faria Lima influenciou-se por ideologias de esquerda ou direita. O fato é que seu brilhantismo é reconhecido agora mundialmente. 

Retomemos o caso do Hino Nacional e de reza na escola. Espero que o costume de entoar esse nosso canto solene (tão difícil) volte.  Só que gravar e mandar para o MEC... não faz sentido! Melhor, sim, gravar as cenas na sala de aula que chocam as redes sociais (ou que as deleitam?) e aí, sim, mandar para o MEC e a Polícia.

Rezar lá na escola? Aprender sobre qual religião? Uma questão delicada. Não podemos, mesmo cristãos como eu, ser ingênuos. Imagine na época das Cruzadas o que trariam os religiosos para a escola. Imagine na época do assassinato em massa, na famigerada Noite de São Bartolomeu, o que trariam os religiosos para a escola? Imagine os "santos" inquisidores e os matadores de milhares de cátaros e valdenses na França, o que não trariam para a escola? 

A prática da oração, valores éticos e morais, isso se aprende em casa!  Não é professor nem diretor que escolhe entre catolicismo, protestantismo, espiritismo, islamismo, budismo para ensinar na escola. Qual doutrina a melhor? Como enfiar Deus goela abaixo na escola? E aqueles que só acreditam na perspectiva do nada?  E o que o violento e espetaculoso Malafaia nos traria quando Bolsonaro lhe pedisse conselho sobre o tema? E o Macedo? Ia querer dar pitaco também. 

O poder religioso já fez muita titica ao longo da história. E o atraso durou mil anos.  Então, temos de ter um estado laico e humano; caso contrário, os extremistas loucos tomarão conta. Alguns deles querem voltar à Idade Média, querem o Criacionismo, afundando a Teoria de Darwin. Outros demonstram ingenuidade inacreditável. Outros mais, porém, são maus, simplesmente. 

A questão então é esta, além da questão do Hino Nacional — a necessidade do Estado laico. Religiosos de costumes retrógrados inspiram medo. E a religião, a despeito da cruzada heroica de Lutero contra as indulgências (quando se comprava o Céu aqui na Terra), temos doutrinas novas que trouxeram as indulgências de volta, prometendo prosperidade material a quem mais doa para a sua igreja, fazendo submergir muitos incautos e suas famílias... Deus nos livre! O que não farão estes arautos imiscuindo-se na política e nas diretrizes governamentais?

Faço votos que Bolsonaro consiga se aprumar. Ou que ele não nos mergulhe num caos maior do que o que já estávamos. Ao ensejo, aproveito para fazer minha petição. Senhor ministro, senhor capitão, eu quero — o brasileiro quer — voltar a cantar o Hino Nacional. Para isso, vamos a uma campanha séria e inteligente, por favor!  Não me venham com campanhas atabalhoadas nas redes sociais, que não vai dar certo. E não me venham com programas mal cozidos — o brasileiro anda muito maltratado, ressabiado. E descrente.

Aristides Coelho Neto, 11 mar. 2019 

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