TEXTOS DO AUTOR

RELÓGIO MARCA, NÃO IMPORTA A MARCA

O que realmente marca o nosso tempo? As músicas, os objetos? os sabores, o relógio?

Fico imaginando com frequência — parece até falta do que fazer — qual o objeto ou situação que mais esteve presente em nossa vida. Se imaginarmos esta vida e outras que se sucederam antes dela, essa reflexão fica mais interessante ainda. Se apelarmos para objetos, sons, imagens, odores, sabores, a questão fica mais intrigante. 

Sapato, roupa, pente. Música, escova de dentes, sabonete, bicicleta, caneta, anel. Apito de trem, som de sino. Cheiro de café. E relógio, nas suas variadas apresentações. Quais deles mais povoaram as lembranças? Quais marcaram a nossa vida? Quais foram mais presentes? Quais ainda saltam do nosso baú de lembranças?

Lá pelos dez anos de idade, ganhei um relógio de pulso da marca Omodox. Orgulhoso do relógio que adornava o pulso esquerdo, eu não disfarçava, com jeito infantil, o contentamento. E o comentário da amiga de minha mãe me marcou também, tanto quanto o relógio dourado de pulseira marrom: "É novo?"  Sim, disse eu. "Bem que se percebe." Observação fulminante. Acho que fiquei pensativo e envergonhado por um bom tempo. depois desse primeiro relógio, vieram outros, sem o impacto do ineditismo daquele da infância.

Dizem que foi Alberto Santos Dumont quem inventou o relógio de pulso. Seu amigo Louis Cartier teria ajudado Alberto a concretizar o plano de ver as horas sem tirar as mãos do comando, quando em voo. Assim, em 1904 teria surgido o protótipo do primeiro relógio de pulso.  Só que essa história, parece, não passa de uma lenda — o primeiro relógio de pulso conhecido teria surgido nos idos de 1814. Diz-se que surgiu das mãos do relojoeiro Louis Breguet, por encomenda de Carolina Murat, princesa de Nápoles e irmã de Napoleão Bonaparte.

A meu modo de ver, os relógios de pulso não têm o charme dos relógios de bolso. Não pensem que sou do tempo deles. Comprei um de bolso usado há pouco tempo, marca Ômega, dos anos 1920. Não sei bem o destino que vou dar a ele, que me lembra coisas imprecisas e voláteis guardadas no inconsciente. Reminiscências que não sei explicar, sensação boa.

Raros os relógios hoje em dia que fazem "tic-tac". A estes  sempre estiveram  associados ponteiros em movimento, tique-taques cadenciados, eventualmente som de carrilhões, pêndulos que nos deixavam quase hipnotizados.

Relógios têm um atrativo especial. Embora carreguem um ar impositivo, são como professores ou bedéis que nos chamam à responsabilidade no cumprimento dos deveres e no evitar desperdício de tempo.

Falar dos relógios digitais? Deixemos pra lá, coisa mais sem graça! Arrogantes, espaçosos, sem nem um pouco de romantismo...

Digamos que relógio só mede o tempo, já que este passa, inexorável, sem auxílio de quaisquer mecanismos. Isso enseja que atribuamos os melhores valores ao tempo despendido.  O relógio, impiedoso, simplesmente marca que o tempo urge.

Aristides Coelho Neto, 22 jun. 2018

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RELÓGIO DIGITAL

No escuro da sala
em noite alta
o olho eletrônico
do relógio digital
brilha em eloquente azul.

Quase volátil
e em obliquidade
sua luz perscruta
a vida humana presente
em cada canto.

Faz anunciar uma vigília
permanente e insondável.
fogo-fátuo a exprimir
símbolos insólitos
precendentes de outros
que certamente virão.

Brilha com força
no escuro ventre da noite
uma luz inaugural.
Alegoria sonâmbula
a vaticinar o amanhã
belo e leve.

Se assim o permitirem.

Therezinha Guimarães Corrêa

 

O TEMPO E O RELÓGIO

Certa vez, o tempo e o relógio se encontraram (embora estejam todo tempo juntos).
O tempo, revoltado há muito tempo, disse ao relógio tudo aquilo que, há tempos, vinha guardando.
Que ele, tempo, tinha saudades daqueles tempos em que não existiam relógios e todo mundo tinha tempo. Mas, quando o homem, ingrato, fabricou o relógio que começou a marcar tempo, ninguém mais conseguiu ter tempo. O homem ficou reduzido a horas, minutos e segundos.
"Antes, naqueles bons tempos," – disse o tempo – "todo homem tinha tempo de curtir a natureza. Viviam com o sol de dia, dormiam com a lua à noite."
"Quando a lua caprichosa não queria aparecer, era um bando de estrelas que piscavam brincalhonas, dando tempo para o sol nascer."
"Mas agora, nestes tempos, ninguém mais tem tempo de ver se a lua vem sorrindo para a direita ou para a esquerda, se está de cara cheia ou de mau humor, sem querer aparecer."
O tempo prosseguiu com um sorriso de tristeza.
"Antigamente – que tempos! – os homens nasciam no tempo certo em que tinham de nascer. Não havia incubadeira para os fora de tempo nem cesariana para os que passam do tempo. A natureza sabia, em tempo, quando era tempo. Hoje, o homem já obedece a você, mesmo antes de nascer. Os médicos estão apressados e sem tempo para perder."
O relógio só ouvia e, apressado, prosseguia no seu tic-tac, sem tempo de retrucar, com medo de se atrasar.
"Noutros tempos" – disse o tempo – "o homem crescia sem pressa, com tempo de amadurar. Comia sem ter horário, dormia quando tinha sono. Fazia amor ao relento, como flores que se beijam, como aves que se aninham. Envelhecia aos pouquinhos, como um calmo entardecer. Depois, dormia o sono profundo e, no outro despertar, abraçava-me com carinho, no infinito... no infinito..."
O tempo enxugou uma lágrima, talvez de orvalho. A voz que estava embargada,  tomou uma conotação de revolta:
"Hoje, vai logo para a escola e traz para casa um horário. Quando aprende a ler as horas ganha do pai um relógio e, assim, ensinam-lhe bem cedo a maneira mais correta de nunca ter tempo na vida."
O tempo não se preocupava mais com o tic-tac do relógio que nada retrucava para não se atrasar. Continuou a sofismar com voz mais branda.
"Come apressado, sem tempo. Dorme ainda sem sono, pois, de manhã bem cedinho, você começa a gritar arrancando-o da cama, quando ainda queria dormir."
"Amor? Nem sei se ainda faz... há gente que nem tem tempo. Quando faz é no zás-trás. Quando vê, já envelheceu, sem ver o tempo passar."
"Na hora do sono profundo, enterram-no apressados, para a vida continuar. E no outro despertar, chega tão abobalhado que não consegue me achar."
Ao relógio, sem poder nunca parar, só restava se calar. Além do sentimento de culpa que passou a carregar, a partir desse tempo, quando bate as doze badaladas no silêncio da meia-noite, o canto é tão melancólico que até parece chorar.

Fênix Faustine

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