TEXTOS DO AUTOR

NATAL, CORRIDO NATAL

Justiça seria feita, mais cedo ou mais tarde. Papai Noel, o causador daqueles distúrbios e correrias, quem sabe, seria preso.

“Eu detesto Natal. Essa correria danada, todo mundo enlouquecido. Até meu cartão do Itaú eu perdi. Pra quê... pra que que eu fui sair hoje... só pra me aborrecer.”, dizia bem alto a inconformada senhora no balcão da Claro, no shopping do Conjunto Nacional. Era 24 de dezembro.

 

Papai Noel malvadoTentei acalmá-la. Recomendei, logo que pudesse, bloquear o cartão. Que relaxasse, pois não valia a pena chatear-se por tão pouco. Instintivamente eu ainda disse, à guisa de consolo, que justiça seria feita — que Papai Noel, o causador desses distúrbios, se Deus quiser, um dia seria preso... Ela me olhou meio descrente e desconfiada ao mesmo tempo.

 

Fiquei a pensar no que acometia aquela mulher naquele momento. Quem sabe a síndrome da correria de fim de ano, a síndrome da falta de tempo, em tempos em  que o tempo corre mais acelerado. É um paradoxo total essa questão da temporalidade. Ganhamos mais anos para viver, dizem as estatísticas, nem sabemos mais quando podemos ser considerados velhos, temos mais tempo com as facilidades de novas tecnologias, e estamos sempre correndo, sem tempo para filhos, para amigos, para cuidar do espírito, para encontros pessoais, que valem muito mais que os virtuais...

 

“Os dias voltam, mas os minutos são outros”, nos diz André Luiz. Mas até a interpretação desse texto, que deveria ser um alerta quanto à perda de tempo, pode resultar equivocada, já que as pessoas o enxergam como motivo para correr.  Nessa ânsia louca, a gente acaba se lembrando das observações de Dra. Simone Engbrecht, que sabiamene nos diz que “todos sofrem por uma angústia em estar perdendo algo. A humanidade ganhou mais tempo de vida, mas ele passa mais rápido”.

 

Minha interpretação é mais simples. Por falta de atenção (mais que de tempo), o Natal é data próxima do final do ciclo de um ano. E uma reflexão rápida sobre o que deveríamos ter feito e não fizemos pesa na balança.

 

Pode ser essa a insatisfação demonstrada pela senhora lá no shopping.

 

Mas lamentável mesmo é a atuação e a figura do Papai Noel — não mais São Nicolau —, com a sua carinha fofinha recondicionada pela Coca-Cola nos anos 50, nos incitando às compras, gerando esse tumulto puramente comercial. Injusto, ele acaba pendendo para as crianças abastadas, se esquecendo das que não têm escola, agasalho, comida e guloseimas muito menos.  Um Papai Noel que, além de pleno de falsidade, tenta obscurecer e rivaliza com  a figura do supremo Aniversariante, Jesus, o Cristo de Deus.

 

Eu finalizava justo essa frase que acabaram de ler, quando recebi o telefonema de Isabel. “Preciso de um favor seu. Gostaria que ligasse para minha netinha, a Pétala, como se fosse o Papai Noel.  Ela está esperando um telefonema dele...”. A ansiosa avó e querida amiga me passou alguns dados sobre as relações de Pétala, suas amiguinhas, seus anseios natalinos. Por que só a Pétala? eu pensei. Bem, São Nicolau também não pôde abraçar o mundo todo de crianças desvalidas. Fez o que estava a seu alcance, na Lícia, idos do século 4, onde hoje é a Turquia.  

 

E eu não pude me furtar. Liguei para Pétala. Não, não falei de Jesus, porque ela não entenderia.

 

Fiz-me de onipotente. Minha voz, num tom de patrono, revestiu-se de ternura e sabedoria. E eu sabia muito sobre a garotinha, que, extasiada, ouviu de mim conselhos frugais e promessas que certamente seriam cumpridas com o aval dos avós, claro. No entanto, eu disse também que não tinha tempo de estar pessoalmente com ela. Que o presente seria deixado só depois que ela dormisse. Sem tempo, o tempo, novamente o tempo. E eu finalizei com um Feliz Natal. E ainda disse ho-ho-ho. Só me faltava essa.

 

Aristides Coelho Neto, 25 de dezembro de 2010

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