TEXTOS DO AUTOR

A ABOMINÁVEL POLISSONOGRAFIA E OS ELETRODOS DE AMANDA

O que Amanda fazia debaixo dos lençois a pretexto de verificar os eletrodos? E por que a taça de cabernet na mão?

Dormir é muito bomDirceu chega às vinte em ponto. Se apresenta na recepção, travesseiro embaixo do braço, uma sacola com revistas. Não lhe sai da cabeça a recomendação de não usar esmalte colorido. Ridículo, isso.

Olha de "esgueio" os pacientes que certamente se submeteriam aos exames. Passar a noite na clínica. Claro que sem acompanhantes. Dirceu divaga. Reflete sobre a diferença entre clínica e motel. Motel sempre admite acompanhante. Aliás, sem acompanhante é horrível, muito sem graça. Dirceu tem cada uma!

Enquanto espera a vez de fazer a ficha, uma coisa leva a outra... E pensa também no caso de um casal de judeus que foi ao médico, um terapeuta sexual. A escolha de  protagonistas judeus deve-se ao fato, muito provavelmente, de os judeus serem bons administradores de suas economias. Moysés quer que o médico observe o casal transando. Espantado, ele concorda. Ao final do ato, diz que nada viu de errado. A consulta de 70 reais é paga. Mas isso se repete por várias semanas. Marca-se o horário, o casal faz sexo sem problemas, paga e deixa o consultório.

Até o dia em que o médico não se contém e quer saber o que estão tentando descobrir. E Moysés explica. Nada! O problema é que ela é casada e ele também. No motel Devaneios um quarto custa 120 reais, no Babilônia custa 100. E lá no consultório, transam por 70 reais. Com acompanhamento médico, atestado, reembolso de 42 reais pela Unimed, e ainda uma restituição do IR de 19,20 reais. Assim, um custo final de apenas 8,80. Claro, isso não aconteceu. Mas a piada é ótima.

O que essa história tem a ver com a clínica? Niente. Dirceu apenas divaga enquanto espera. Se não fosse pelo convênio, a polissonografia custaria 800 reais. Mais que um hotel cinco estrelas. Olha só que preço, e para dormir mal, pensa.

Eram pessoas de vários tipos na saleta. Algumas pareciam cansadas. Outras, descrentes. Olheiras era o que não faltava. O pessoal do ronco devia estar lá, com certeza.  Dirceu se lembra do casal que conhecera certa vez. Ele com problemas de ronco, ela com problemas de insônia. Só ele necessitou de tratamento. Ronco de companheiro produz insônia na companheira.  Em quartos separados, a vida dela mudou, e ela se tornou uma pessoa feliz. O que prova a relatividade do conceito de felicidade. Bastou isso para ela. Silicone no ouvido também pode resolver. Divórcio, em último caso.

Dirceu se recorda ainda do Zé Newton. Nas viagens de equipe, ninguém queria ficar no mesmo quarto. Zé Newton roncando apresentava os decibéis de uma serraria em pleno funcionamento. As paredes tremiam em magnitude discreta na escala Richter. Bem, Dirceu exagerava ao contar esse caso, mas era quase isso.

Na sala de espera, também pessoas obesas. Dirceu fica sabendo que nas cirurgias de redução de estômago existe a necessidade de investigar o sono. Nem imaginava. Será que só de pensar em comer menos perde-se o sono?

Já no quarto, a quantidade de eletrodos que recebe por todo o corpo é indescritível. Amanda, esse o nome da enfermeira, muito gentil.

Monitorado, uma vez deitado, não poderia se levantar sem chamá-la. É só apertar o botão, recomenda Amanda. Dirceu não acredita que conseguirá ficar muito tempo parado na cama.  Em casa ele é como um zumbi, da cama pro sofá, do sofá pra geladeira, da geladeira pra cama, infindavelmente...

O tempo passa e nada de o sono chegar.  Até que Dirceu dorme. Acorda com o toque suave de mãos femininas. Sem acesso ao interruptor, percebe que a luz vai se acendendo gradualmente. O quarto fica à meia-luz. É Amanda. Dirceu pergunta ingenuamente o que faz ela àquela hora embaixo dos lençóis. Ela diz estar ajustando os eletrodos. Ele não entende. É quando Amanda lhe oferece uma taça de cabernet. Bem, isso é tudo o que Dirceu quer, mas é apenas um sonho de segundos.

A noite é longa. O botão que chama Amanda é apertado para pedir água por duas vezes. Para abaixar a temperatura, outras duas. Em mais de duas vezes os fios nas pernas se enroscam. Difícil virar com aquela parafernália. Proibido ficar de bruços. Para fazer xixi e andar um pouco pelo quarto, Amanda tem de desligar o aparelho, que fica dependurado no pescoço de Dirceu. É o momento de Dirceu ter a sensação de um original homem-bomba de pijamas, que seria abatido preventivamente se nas ruas de Israel.

Às quatro Dirceu tem uma ideia. Pode ser genial. Usar uma tática que os parlamentares usam com seus pares. Se Amanda não desligasse os eletrodos, Dirceu contaria tudo que sabia sobre ela à imprensa e à polícia. Às cinco, Dirceu dorme um pouquinho. Sonha com os fios, mas acorda com o reflexo de uma luz vermelha do eletrodo da ponta do indicador. Luzinha besta. Na ponta do dedo. E se lembra do filme ET, aquele dos anos 80.  Esconde a luz embaixo do travesseiro. Sim, sim, noite muito longa.

Dirceu dorme de verdade às seis e trinta. Mas Amanda o chama às sete.

Ela tira os eletrodos e indica a porta de saída.

Dirceu é rápido. Pega o que é seu, e embica pelo corredor, travesseiro em uma das mãos, sacola na outra. Quer a sua cama, sua doce caminha. E ser independente. Mesmo que seja pra não dormir.


Aristides Coelho Neto, 21 fev. 2010 (acabou agorinha o horário de verão)

Comentários (3)

Voltar