TEXTOS DO AUTOR

ACORDO ORTOGRÁFICO — O CHAPÉU DO CHINÊS CONTINUA

Surgem ilações engraçadíssimas quanto ao Novo Acordo Ortográfico. As pessoas imaginam que tudo o que era complexidade, discórdia e exceção será resolvido com a famigerada reforma ortográfica.

“O acordo ortográfico tem tanta excepção, omissão e casos especiais que não traz qualquer mudança efectiva”, teria dito o escritor angolano Mia Couto. “[...] acho que é um desperdício de energias, um desperdício de dinheiro, e penso que se devia gastar o pensamento e as forças em outra coisa qualquer”, teria dito a professora brasileira Maria Lúcia Lepecki. (ver Os Livros). E muitos outros externaram sua indignação. Mas acho que não importa mais criticar o Acordo.  É caminho sem volta. Cabe-nos assimilá-lo. E fim. O que não nos impede, porém, de dizer algo sobre as inferências hilárias que os usuários da língua andam fazendo.

Eu saía dia desses de um self-service do final da Asa Norte, quando deparei com painel já quase pronto em empena de prédio da W3: “Restaurante chines Tenda do Chen”.  Notando a falta de um circunflexo, metido a besta que sou, atravessei a rua e disse ao pintor: “Vai colocar o chapeuzinho no chinês?”. Ele disse: “Meu patrão disse que não tem mais chapeuzinho... uma tal de reforma que foi aprovada”. Ao que rebati: “Pode colocar por minha conta. O chapéu não caiu. Pode acreditar”.  Ele esboçou uma expressão de semidúvida e tascou o chapéu no chinês. E eu saí vitorioso, com sensação de dever cumprido. 

Pois é, as fantasias sobre o Novo Acordo Ortográfico estão de vento em popa. Disseram até que de vento em “polpa” (faz de conta que era uma gracinha de quem escreveu).  O engraçado é que surgem discursos pra lá de bizarros de gente até de relativo conhecimento e formação.  Há quem diga que a língua é dinâmica e que “é isso mesmo”. “Vamos poder escrever licho e não lixo, ezistência, coisas assim, sem falar na missa que será miça, até que enfim...” Só que não se sabe de onde surgiu tanta fantasia. Outros ainda detalham alguns probleminhas: “cágado, agora cagado, fica estranho, mas a gente fala tão pouco o nome do bicho...”.  Mal sabem eles que dinamismo tem limites.

É gostoso ouvir coisas criativas sobre o Acordo, como essa de Clara McFly: “Você usou o trema?  Não, eu juro! (pausa; ele manda um assistente me aplicar um choque elétrico). Aaaaaaargh! Parem, parem, por favor! Vou perguntar de novo. Você usou o trema? Tá, usei, usei! Mas foi só para grafar ‘Bündchen’. Achei que as novas normas não se aplicavam aos nomes próprios! Ah, é. E não se aplicam mesmo. Desculpa aê. Vamos te liberar agora. Aceita um chá?”.

Mas se eu for listar as bobagens que tenho ouvido, tenho receio de impregnar o inconsciente do leitor e acabar por prestar um desserviço.

Vou me limitar a apenas um caso recente de uma arquiteta amiga. Ela disse, juro, para meu espanto:

— Até que enfim, caiu a maldita crase.

— O quê?!... – disse eu, de queixo caído, ao que ela disparou:

— Calma, há um período de transição em que se pode escrever com crase ou sem crase...

Era só o que me faltava. Assim traduzo o que acontece: ninguém quer mais enfrentar dificuldades na grafia das palavras. E o Acordo será a panacéia – em breve “panaceia” –, que chega e passa uma borracha nos tropeços todos.

No período em que vão coexistir as duas grafias haverá um complicador: o imaginário das pessoas, que enterram o trema, e com ele a cedilha, a crase, os acentos agudos e circunflexos e muitas outras coisinhas que só servem “pra complicar a vida da gente”.

A gente ganha pouco mas se diverte, não é mesmo?

Aristides Coelho Neto, 26.10.2008

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