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MUDANÇAS NO PORTUGUÊS: E JÁ SE VÃO 90 ANOS

Até a gente se ajustar às últimas mudanças leva algum tempo. Nem os lexicógrafos se ajustaram ainda. Mas gente chega lá. E eles também. Para Luiz Carlos Cagliari, o povão mesmo não "está nem aí".

Minha tia Ivete e minha mãe nasceram ambas  em 1919. Alfabetizadas então na década de 20, eram do tempo do “sahir, ahi, typographica, pharmacia, official, machina, diccionario, escripta, egypcio, hontem, papae, captivo, hum, ella, anno ”. Quando me escreviam, até na década de 90 deixavam escapar as formas arcaicas. Na última década, pararam de escrever, não por causa dos novos tempos do computador. Pararam por causa da idade mesmo. E a gente fica curioso quanto à assimilação do Novo Acordo Ortográfico — NAO, em vigor desde o início deste ano de 2009.  

Em “Ruídos Lingüísticos (com trema por enquanto)”, de agosto de 2007, Fábio de Castro (Agência FAPESP) entrevista Luiz Carlos Cagliari. Dizendo da absorção das mudanças, o entrevistado tem convicção de que quem sofrerá maior impacto com o NAO são os literatos “porque a ortografia também pode ter valor estilístico, como vemos em autores como Saramago. Por outro lado, em um país em que grande parte da população não lê, uma reforma ortográfica vem perturbar apenas os letrados”.


Ao se referir à reforma de 1919, Cagliari afirma que somente na segunda metade do século 20 as pessoas aderiram de fato. E nem todas, haja vista minha mãe e minha tia Ivete. “As publicações só adotaram a reforma 50 anos depois. Nas reformas posteriores, a intervenção do Ministério da Educação nas escolas, nos livros e nas editoras foi ameaçadora, como é hoje — ou tudo ou nada.”  Professor Cagliari acha que, para as pessoas cultas, a reforma começa logo, por força social. “Na escola, é um grande problema para os professores e menor para os alunos, que não precisam modificar o que sabiam antes. Para o povo, pouco interessa. Muitos continuarão escrevendo fora de qualquer padrão tradicional ou imposto por lei, mas de acordo com hipóteses que fazem de como podem escrever para alguém ler e entender o que eles querem dizer.”

A título de curiosidade, fiquem com um trechinho publicado n’ O Estado de São Paulo” de 30.11.2008, que mostra as alterações pelas quais a língua portuguesa passou desde 1930.

Aristides, 2.12.2008

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Até os anos 1930
João acorda na manhan de sabbado, começa a tomar seu cafèzinho, mas percebe signais de uma jibóia, prompta para dar o bote. Êle pára, olha e tenta sahir tranqüilamente da sala, sem assustal-a. Vizinhos o vêem correndo pela auto-estrada e oferecem abrigo na egreja.

Até os anos 1970
João acorda na manhã de sábado, começa a tomar seu cafèzinho, mas percebe sinais de uma jibóia, pronta para dar o bote. Êle pára, olha e tenta sair tranqüilamente da sala, sem assustá-la. Vizinhos o vêem correndo pela auto-estrada e oferecem abrigo na igreja.

Até 2008
João acorda na manhã de sábado, começa a tomar seu cafezinho, mas percebe sinais de uma jibóia, pronta para dar o bote. Ele pára, olha e tenta sair tranqüilamente da sala, sem assustá-la. Vizinhos o vêem correndo pela auto-estrada e oferecem abrigo na igreja.

A partir de 2009
João acorda na manhã de sábado, começa a tomar seu cafezinho, mas percebe sinais de uma jiboia, pronta para dar o bote. Ele para, olha e tenta sair tranquilamente da sala, sem assustá-la. Vizinhos o veem correndo pela autoestrada e oferecem abrigo na igreja.

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