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Shopping Pátio Brasil, um encontro sinistro

O último caso de suicídio no Pátio Brasil, pela sua recorrência, enseja muita discussão sobre o assunto. É tema complicado, polêmico, de abordagem delicada. Leia e alinhave sua opinião.

Tive contato com uma carta-desabafo do pai de Pedro Lucas, rapaz que cometeu suicídio recentemente, atirando-se do andar superior do shopping de nome Pátio Brasil, em Brasília. É texto marcado pelo sentimento de um pai que perde um filho de forma atroz. Toda a dor desse pai é canalizada, porém, para a Administração do shopping, que não se manifestou, como não tem se manifestado quanto a casos semelhantes que têm ocorrido no mesmo lugar.  O fatídico local de onde as pessoas têm se jogado não recebeu ainda qualquer proteção. E todo funcionário do shopping é desestimulado a comentar fatos desse tipo. Marcos Dantas – esse o nome do pai de Pedro – manifesta a sua indignação também com o acobertamento dos suicídios que acontecem, numa infeliz estatística de um por mês nos últimos doze meses, segundo informa. Ele considera tais pessoas que atentaram contra a própria vida como “vítimas do shopping Pátio Brasil”, que tacha de macabro, omisso, mais preocupado com vendas do que com segurança.

foto acnO que contém esse primeiro parágrafo enseja muita discussão sobre o assunto. Suicídio é tema complicado, polêmico, de abordagem delicada.  

Em agosto de 2002, Allen Myerson, editor de economia do New York Times, jogou-se do 15º andar do prédio em que trabalhava. Tal acontecimento gerou uma série de debates, segundo Vanessa Canciam em seu artigo “Imprensa e suicídio, uma abordagem ética e técnica”. Jornais de linhas editoriais diferentes se digladiaram. As acusações giravam em torno de posturas excessivamente reservadas e posturas exageradas e sensacionalistas.  Hoje sabemos que, nos veículos de divulgação, existem normas internas que recomendam evitar a divulgação de suicídios. Isso porque se acredita que a simples menção ao fato pode ser o estopim para um desejo ainda não manifesto de suicidas em potencial – a difusão como fator indutor de atos semelhantes. 

Mas há quem diga que não há comprovação da influência funesta da mídia no estímulo ao autocídio. Os adeptos da divulgação, porém, sempre colocam ressalvas quanto ao enfoque que deve ser dado. Muitos asseveram que não se deve explorar demasiadamente casos de suicídio, mas imprimir um revestimento ético à notícia. Como dosar isso e como embasar a abordagem para que tenha efeito positivo e não negativo, eis a questão. É notório que profissionais de saúde, sociólogos e jornalistas não se entendem nessa questão, mas o que prevalece é o retraimento na hora de divulgar, por via das dúvidas.   

David Philips, sociólogo da Universidade da Califórnia, afirma que há aumento de 2% em casos de suicídio quando uma história semelhante aparece na imprensa, segundo Canciam. E as pessoas seguem adotando linhas diferentes ou linhas cheias de ressalvas, como a do psiquiatra Roosevelt Cassoria, que afirma que casos de pessoas famosas influenciariam mais do que de pessoas comuns. Uma das ressalvas é que a notícia influenciaria apenas pessoas predispostas à aniquilação da própria vida ou aquelas com algum grau de perturbação mental ou emocional.

Fato é que muitas famílias que passam pelo problema pedem para que sejam preservadas da exposição à mídia. Enquanto isso, nos chegam as opiniões daqueles que não encaram o suicídio como problema individual mas como social, o que indicaria uma patologia de um grupo ou outro segmento qualquer da sociedade. A insatisfação da vítima seria para consigo mesmo, para com a família, ou para com a sociedade como um todo? Aí entraria o interesse público e a necessidade de rever as bases da estrutura social.

“O sofrimento do jovem Werther” (1774), livro de Johann Wolfgang Goethe, no qual o herói se mata, provocou ondas de suicídio entre jovens, como afirma o psiquiatra Danúzio Carneiro, de Fortaleza, citado em artigo de Plínio Bortolottti.  Ao tempo em que menciona o direito de a sociedade ser informada, recomenda que o fato seja contextualizado, com vistas à “reflexão e à aprendizagem psicossocial”. Abster-se dos aspectos sensacionalistas é ponto comum entre todos aqueles que abordam o tema. Promover um trabalho informativo e educativo também. No artigo “A imprensa deve noticiar suicídios” (O Povo, 13.11.2005), Bortolotti comenta que determinada leitora abordou o fato de não existir nada pior do que as notícias de crimes na mídia. E o articulista de O Povo refletiu a semana inteira sobre a afirmação... Nós que nos vemos bombardeados com esse tipo de cobertura, ficamos sempre na dúvida. Quais estudos sérios esses casos têm suscitado? O quanto isso tem alimentado a curiosidade mórbida dos expectadores? O quanto isso tem atrapalhado a elucidação de crimes? A mídia deveria puxar o freio na divulgação? Eu pelo menos não sei responder.

Se o leitor for à internet a fim de buscar informações sobre suicídio, prepare-se. “Há mais sites que encorajam o ato do que aqueles que tentam dissuadi-lo e oferecem apoio.”  Essa a conclusão de um estudo feito por pesquisadores das universidades de Bristol, Manchester e Oxford, no Reino Unido. Até a realização desse estudo publicado no British Medical Journal, sabia-se da influência das reportagens publicadas na imprensa e em programas de televisão. Tenho até receio de falar sobre isso diante desse novo recurso da comunicação via web de que os jovens tanto se utilizam. Existem três sites, os mais populares (não vou citá-los), com informações a favor do suicídio, entre os quais métodos, velocidade, exatidão e até mesmo a quantidade de dor esperada em cada uma das alternativas”. A contenção dessa onda só vem pela “autorregulação dos provedores e o uso, pelos pais, de programas que filtrem páginas de internet”, afirmam os autores do precitado estudo.

Voltando ao caso do Pátio Brasil, diante do que alinhavamos, só temos certeza de uma coisa — casos de repetição de eventos suicidas exigem que precauções quanto à segurança sejam tomadas e que autoridades da saúde pública se debrucem sobre o problema. As famílias devem procurar se inteirar das possibilidades de autoaniquilação que existem no seu âmbito, para procurar a devida ajuda psicológica profissional. 

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Para finalizar, faço agora uma abordagem um pouco diferente. Os leitores, imagino, em bases dicotômicas, podem dividir-se em (1) crentes em uma Ordem Divina (chamemo-los espiritualistas), e (2) descrentes dessa ordenação promovida por um ser impalpável que a tudo preside (chamemo-los materialistas).

Os espiritualistas condenam o autocídio em função de suas crenças, fundadas na imortalidade da alma e na existência de uma força superior que transcende a vida material. Fundamentos, portanto, bem diferentes dos adotados pelos materialistas, embora estes também tenham suas razões para abominar a interrupção deliberada da própria vida. Quais seriam essas razões, afinal?

O médico Lucas Veras, ao expor seu pensamento, despido de qualquer conotação espiritualista,  afirma que “a preservação da própria vida é o segundo instinto mais forte no ser humano. Em casos de perigo de vida eminente, o ser humano (e outros seres vivos), por mais passivos que sejam, até matam  para preservar a sua integridade física”. O primeiro, o mais importante instinto, é a proteção da cria, que, segundo Veras, faz com que o animal racional ou irracional sacrifique a própria vida em prol da de sua cria. E Veras complementa: “Sem os impulsos inatos da preservação da espécie, a raça humana já estaria extinta. Ao se atentar contra a própria vida, vai-se de encontro a essa regra maior da natureza”.  Ao se manifestar quanto ao suicida, ele finaliza: “Todo suicida padece de um desequilíbrio emocional, já que as regras inerentes à espécie somente são rompidas quando existe  desagregação do pensamento”.

Dentro dessa ótica, o suicida contraria uma ordem natural. E vai para local nenhum, pois sua perspectiva pós-morte é o nada. Ao adotar essa postura equivocada, espalha apreensão, tristeza e dor entre aqueles que aqui ficam. Assim, a visão egoística do suicida em nada contribuiria, evidentemente, para o equilíbrio geral.

Numa outra visão das coisas, a espiritualista, com que melhor me afino, o suicídio traria consequências sobre as quais a maioria das doutrinas cristãs pouco sabe. Notícias do “lado de lá”, trazidas pelo Espiritismo, dizem dos dramas dos suicidas. Tais relatos não são nada animadores.  Aqueles que pensam em tirar a própria vida deveriam ficar antenados — esse ato não compensa nem um pouco.

Os contratempos por que passam os suicidas são indescritíveis. E problemas que nesta vida parecem insolúveis permanecem os mesmos do lado de lá. Sua solução só fica adiada.

Aristides Coelho Neto, 12.4.2009

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