TEXTOS DO AUTOR

Repertório lexical, qual seria o ideal?

Um novo livro do jornalista Alberto Villas acaba provocando o assunto da dosagem das palavras e expressões de acordo com o público-alvo. Guardar o conquistado repertório lexical só para si? ou fazer uso à vontade?

Eu já me havia surpreendido com o livro “O mundo acabou”, do jornalista Alberto Villas. Ele acaba de lançar “Admirável mundo velho” (Globo). Novamente Villas, 59, viaja pelas suas reminiscências, trazendo expressões que já caíram ou começam a cair no esquecimento, tais como morar no caixa-pregos, no cafundó-do-judas, onde o vento faz a curva, remedar, rendez-vous. Como um jovenzinho de hoje pode entender o que é “vire o disco”? para significar “deixar de ser repetitivo”, se a alusão fazia sentido ao vinil? já que CD não se vira, só tem um lado? Difícil entender hoje o que é um boletim todo vermelho, se não se usa mais tinta vermelha para grafar as notas baixas. É a tecnologia influindo no linguajar.

Nem vi o livro ainda, mas me passa pela cabeça o tal do fulano-dos-anzóis-carapuça, que tinha um parafuso a menos, que balangava de um lado pro outro quando exagerava na chiboca, lá no interior de São Paulo.  Estar com a macaca, ir pentear macaco, ficar a ver navios, ô de casa, tô frito, cérebro eletrônico, receber ordenado, raspa do tacho, são expressões que Villas vai mencionar. No entanto, por serem da época em que coisas em desuso eram do “tempo que meu avô andava de bicicleta”, elas começam a cair no esquecimento.

O hábito de ler pode nos levar a tempos mais remotos ainda, em que ambulância era “assistência”, que médico era “facultativo” (não peguei esse tempo). Imaginem com o que vamos deparar se mergulharmos nas vastíssimas variedades lingüísticas regionais deste nosso Brasil.  

À medida, porém, que alguns termos vão sendo enterrados, outros termos e expressões chegam em substituição. A língua é dinâmica.

A sensação que tenho de conhecer cada uma dessas expressões me traz uma certa satisfação. Tal fato – de não ignorar essas formas de comunicação falada e escrita – diz  respeito à qualidade e ao tamanho de meu repertório lexical. E conhecer a maioria das expressões, que começam a desaparecer, sem dúvida tem reflexos na nossa autoestima — a gente tem a impressão de que sabe muito...

Mas o fato me remete a outra questão. No começo de 2007, eu lia um livro espírita excelente, um romance. Lia e revisava. Mania de ir anotando problemas, dúvidas, palavras que não conheço. A obra continha terminologia que não era do meu cotidiano.

Acabei escrevendo ao autor. Fiz uma ligeira crítica aos autores espíritas que utilizam um linguajar que se situa na primeira metade do século 20 (às vezes final do 19), numa faixa de difícil compreensão.

Recentemente eu anotara a palavra “redarguir” que ouvira numa palestra. Claro que a conheço. Mas fiquei matutando sobre quantos na platéia poderiam não entendê-la, simplesmente por nunca terem ouvido falar desse termo já em desuso. A cultura aumentando, a comunicação diminuindo. E ao autor eu perguntava agora — por que redarguições, périplos, abscônditos, onímodos, cérberos? mefíticos, resipiscências, ágapes, inópias, procumbências? ergástulos, guantes, imanes, áulicos? blasonações de vitupérios, frustros, prélios? multifários, báratros, cenóbios, fráguas, hebetados?

O autor ficou grato pelas minhas observações. Aproveitou muito do que continham as minhas dezesseis laudas de apontamentos e sugestões. Mas manteve os termos incomuns.

Acho que sei o que ele responderia se eu perguntasse qual a razão de ter mantido todas as manifestações de seu repertório léxico refinado. Possivelmente, ele diria: “Para não banalizar a forma de expressão no nosso português...”

Entendo isso. Tanto eu entendo que não me arriscaria a fazer novamente esse tipo de crítica. É assunto delicado tentar exercer qualquer controle sobre o repertório lexical das pessoas, seja na qualidade de revisor de textos, seja na condição de leitor atento.

Na verdade, um repertório lexical rico não se adquire facilmente, senão à custa de muito esforço, estudo e leitura. Abdicar desse patrimônio individual, e particularíssimo, além de não ser fácil para seu detentor, tem dois efeitos visíveis. Primeiro – seu encolhimento pelo não-uso. Tudo que não se usa atrofia. Segundo — quanto mais não forçarmos o leitor a ir ao dicionário, menos o dicionário será necessário. Contraem-se assim o repertório do escritor e o do leitor. Empoeiram os dicionários, encolhem as tiragens.

Se tenho convicção do que estou falando? Nem tanto, mas que faz sentido faz!

E qual será o repertório lexical que vou usar nos meus textos? Deixem-me pensar... o que me der na telha. Porque escrevo às vezes para mim mesmo, às vezes para o leitor. E ponto final.

Aristides Coelho Neto, 28.3.2009

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