TEXTOS DO AUTOR

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO PICARETA

Um manual às avessas, para ser aproveitado por quem aprecia a arte de enganar as pessoas. E a si mesmo...

Não pretendo ser inédito neste texto, pois deve haver milhares de trabalhos nessa linha — de ensinar a picaretagem. Claro que minha pesquisa é ínfima. Aliás, nem é pesquisa, é apenas um apelo rápido à memória. Daí a grande chance de vocês eventualmente notarem incompletudes no texto.

Picaretagem é o expediente próprio de picareta, aquela pessoa que prima por ser  aproveitadora. É também toda ação ardilosa, moralmente condenável, para a obtenção de compensações ou favores (ver Houaiss).

Dizem que é fácil conhecer um picareta pelos gestos, pelo olhar, pelo andar. Eu particularmente acho difícil. Fico sempre imaginando que picareta usa muita maquiagem.  Só consigo descobrir um picareta quando observo melhor algumas ações recorrentes. É quando se delineia pra mim o seu traço de personalidade.

Se é fácil ou difícil ser picareta, melhor mesmo é começar. Vão aqui algumas dicas para que a pessoa vá se iniciando aos poucos, até adquirir segurança. O maior prêmio para o picareta exemplar e astuto será a impunidade. Notem que não estamos tratando aqui de outras bandidagens, como tirar a vida de uma pessoa, ou de um bicho em vias de extinção – que  dá cadeia na certa. Roubar alguém, casa, estabelecimento à mão armada é problemático também. Já a picaretagem de desvio de recursos, por exemplo, é quase impossível de dar cadeia. É só observar as estatísticas. Por isso, escolha bem em qual área da picaretagem você quer se desenvolver.

Se alguém disser que “castigo vem a cavalo”, que “justiça tarda mas não falta”,  que “o crime não compensa”, que “o peixe morre pela boca”, deixe pra lá. Encare como intrigas da oposição, quando não, coisas do demônio. Nada deve servir de desestímulo a um picareta pertinaz, convicto e fiel.

Se alguém disser que você foi pego numa falcatrua, negue, jure de pés juntos que você nunca soube de nada. Que é uma armação dos inimigos ou dos invejosos. Artimanhas da oposição.

Se você tiver algum poder e se resolver fazer coisas condenáveis, nunca escreva. Só fale. O subalterno que  escrever e concretizar o ato é que vai se estrepar por você.

Fique atento aos grampos. Às vezes falar tem limites. Saiba a hora certa de não usar o telefone. Em algumas situações, use o telefone público, num parque, gafieira, numa festa rave.

Conheça um mínimo de legislação, principalmente para verificar as brechas que existem nos dispositivos legais, para você se locupletar, tirar proveito, e o mais importante, fazer com que alguém caia no poço por você.  Se for eleger um bode expiatório, certifique-se da sua capacidade para a missão. Ex-mulher, jamais. Qualquer ex é perigoso.

Se uma obra estiver cheia de problemas, constatados por notas técnicas, por relatórios escritos, por documentação fotográfica, e você for o encarregado de liberar a fatura, diga: “a meu ver a obra está boa”.  Essa expressão vem carregada de obviedade, mas dá a entender (sempre e apenas) que você não está enxergando problemas onde outros enxergaram. “Salvo melhor juízo” é expressão de uso imprescindível. A meu ver abre a possibilidade de  você correr da raia num momento amargo. Dá margem a reconhecimento da falibilidade do ser humano. A expressão traz quem sabe, quando você estiver respondendo coisas numa comissão de sindicância , a brecha que seus comparsas precisam. Fique atento: um bom picareta tem ramificações em comissão de sindicância.  

Se uma calçada estiver comprovadamente toda rachada por imperícia na execução – se você for o executor da obra e houver interesse de encobrir os defeitos –, afirme que trincas não impedem a pessoa de andar por uma calçada. Diga que esta deve estar nivelada. E basta.

Lembre-se sempre de que tudo tem solução quando se tem um bom advogado. E você pode ter um advogado bom e barato. Cuidado quando é barato demais (barato pode sair caro).  Se a crise mundial é para todos, com certeza já temos advogados alcançados pela crise. Mas contenha-se no seu ímpeto de chantagear advogado...

Picareta que se preza deve atrapalhar a concessão de benefícios de uso comum do povo, aqueles a que todo cidadão tem direito. E deve simular, quando a pessoa consegue receber, que recebeu graças a você. Gostou? Em tudo o que for benesse do governo, dê sempre a impressão de que foi você quem concedeu. E sonegue sempre informações de direito público. Guarde-as para momentos reservados, para parecer generoso.  E qualquer tipo de caridade, faça sempre com o bolso alheio, ou cofres alheios.

Quando for pressionado, fique sério, como quem respeita a opinião dos outros. Mas à medida que for dominando a situação, ria, ria um riso seguro, leve e solto. Quando todo mundo estiver olhando feio para você, pegue no colo a primeira criança que aparecer. Funciona mesmo! E quando as coisas estiverem pretas pra valer, chore. Tal atitude é extremamente simpática e redentora. Mas nada de chorar no recesso do closet, na solidão. Chore copiosamente, com soluço, de preferência em telejornal de horário nobre.

Para finalizar, leve as falcatruas a sério. Falcatrua deve ser feita com responsabilidade (embora a classe dos picaretas deteste essa palavra) e com o maior carinho, consciente.  E tenha em mente o mais importante. Sabe por que foram criadas as leis? Para serem desrespeitadas.

Dificuldades para saber qual será sua especialidade? Já existem testes vocacionais destinados a picaretas. E quando sentir um peso inexplicável, não se preocupe, relaxe — não é a consciência. Jamais! Porque consciência é imponderável, dizem os cientistas. E torça sempre para que o inferno seja uma tremenda obra de ficção.

Aristides Coelho Neto, 16.3.2009

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