TEXTOS DO AUTOR

ASSALTO A ÔNIBUS — diário de um passageiro sem máscara

Segurança pública algemada por falta de efetivo. E cega ao ataques constantes às pessoas de bem. E a bandidagem reinando, embora caolha. Pois em terra de cego — até no reino do crime — quem tem um olho é rei.

Fiz um amigo na polícia rodoviária. De vez em quando, espontaneamente, em meio a lamentos (dele e meus), inconformado com a falta de condições da segurança pública e da educação no Brasil, ele me posiciona quanto a assaltos a ônibus recentes. Julga-se débil, contaminado pela fraqueza maior ainda de sua corporação.

Agora foi a vez da Viação Transbrasiliana, em trecho de Belém ao Rio, Km 102, BR-040. Precisamente hoje, às 3h15 da madrugada.

Muitas vezes se diz que as autoridades subestimam a capacidade do crime organizado. E que existe falta de entrosamento entre a polícia e o judiciário. Dizem os especialistas  que enquanto os criminosos se articulam numa rede eficiente de criminalidade, é crescente a rede ineficiente de problemas. E fala-se de aumento de efetivo, fala-se de fortalecimento da inteligência da polícia, aumentando a sua capacidade investigativa.

No caso do assalto a que me expus em 2.12.2008 (há menos de 60 dias), nem sei se é necessário muito efetivo e muita inteligência, por tratar-se de um crime bem desorganizado.

O ônibus era da Real Reunidas. Os bandidos jogaram galhos na estrada. A gangue estava a pé. O seqüestro do ônibus que trafegou por quarenta minutos em sentido contrário deve ter ocorrido com o propósito de a quadrilha ficar mais perto de casa.  Não havia nenhum carro para a fuga.  E eles foram embora também a pé. Simples. Levaram dinheiro, tênis, moedas, coisas e coisinhas. Nada muito planejado. Nenhuma ambição desmedida. Crime fácil de resolver? Não! Deveria ser fácil. Difícil obter resultados palpáveis mesmo no combate a esse tipo, aparentemente de estratégia tão simplória.

Dia desses prenderam um meliante que os jornais disseram estar envolvido no assalto ao ônibus da Real Reunidas já mencionado e a outros. Havia sido o rapaz levado a Luziânia-GO.  Conversando com a polícia de Luziânia, percebi que na realidade era apenas um assaltante de abrigos de ônibus — desculpem o "apenas", não estou desmerecendo o larápio.

Mais recentemente outro é preso. Interessado em recuperar minha câmera fotográfica e outros pertences, procurei Luziânia, mas o preso só passa por Luziânia-GO para alguns trâmites.  Após, é conduzido a Cristalina-GO.  E é difícil o acesso à polícia de Cristalina... No dia do assalto do começo de dezembro, não conseguimos ser atendidos pela polícia civil da cidade. Sabem como é. Era noite alta. Hora do soninho sagrado.

Sabem que fiquei imaginando o que eu faria frente a frente com o meliante preso? Como ele estava mascarado no dia do assalto, não seria eu a identificá-lo mas sim ele a mim. Eu viajava sem máscara.  Engraçado isso, não?

Bem o que deve ficar claro é que além do problema de sermos vitimados em assaltos recorrentes nas estradas, além da falta de segurança, existe uma questão seriíssima de comunicação posterior entre as vítimas.

Percebam que o ônibus da Transbrasiliana assaltado hoje às 3h15 da madrugada percorria um trecho extenso — de Belém ao Rio de Janeiro. As vítimas são dos mais variados locais, obviamente, espalhadas de Belém ao Rio. Qual a capacidade que tais pessoas têm de se organizar, a não ser que a polícia providencie (ou permita, ou incentive) essa conexão entre os passageiros? Questão delicada, mas também fundamental para que as vítimas se associem nas providências.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres — ANTT poderia vislumbrar essa necessidade, mas a única coisa efetiva que tenho observado dela é manter seus agentes na rodoferroviária de Brasília, com uma pranchetinha na mão, dizendo ao motorista que está na hora de partir.

Voltemos à questão da mobilização.  Eu já havia pensado nisso. Quando a Promotoria de Defesa do Consumidor me afirmou que infelizmente o caso de assalto a ônibus pelo qual eu havia passado não tem relevância social — pasmem —, me imaginei vendendo a minha casa. E utilizando o dinheiro para localizar e contatar pelo menos umas setecentas vítimas do mesmo problema no Brasil todo. Conciliar as férias de todo mundo, contratar ônibus, trazer essas pessoas a Brasília, botá-las em passeata descendo a Esplanada dos Ministérios, alguns com curativos promovidos em função de coronhadas.  Pronto, agora teríamos relevância social.

Os bandidos, simplórios, de modestas pretensões, no seu assalto singelo, de notas mas também de moedas, fugindo à pé, tiveram êxito na sua despretensiosa mobilização e organização. Se conseguem continuar assaltando incólumes, estão em vantagem visível sobre os agentes da segurança pública.  Quem tem um mínimo de organização se sobrepõe a quem tem menos ainda. É a conclusão rápida e rasteira.  Um olho só, então, rei!

Êta, que coisa difícil é a tal da mobilização! Neste justo momento me ocorreu a possibilidade, quem sabe, de fazer contato com um dos maiores sindicatos de São Paulo.  Eles, sim, sabem mobilizar grandes massas. Vou saber se promovem curso de mobilização à distância.

Ou encontro a forma de mobilizar as vítimas de assalto a ônibus ou não me chamo Valdemar.

 

Aristides Coelho Neto, 28.1.2009

 

Eis aqui outros textos do autor relacionados ao assunto

"Assalto ao ônibus da Real Reunidas":

Meu primeiro assalto — a parte péssima

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Roubo e seqüestro de ônibus perto de Brasília

Peripécias de panfletagem

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Doutora, sugira alguma coisa...

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