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Por que nós brasileiros não hablamos español?

Amadeu Tavares traz uma curiosidade para o internauta. Relembra que uma análise custo–benefício promovida por Castela no séc. XVII contribuiu para que estejamos hoje “falando” em vez de “hablando”.

O idioma espanhol está sendo inserido na oferta de disciplinas básicas do sistema de ensino brasileiro, em consonância com a Lei de Diretrizes e Bases do Ensino Nacional (LDB), resolução MEC/CNE 23/05, regulamentada pelo Ministério da Educação desde 2005, tendo em vista o Acordo de Ouro Preto, que convalidou o Mercosul como fator agregador das culturas ibero-americanas.

A Lei Federal 11.161, de 5.8.2005, estabelece que o ensino da língua espanhola seja implantado gradativamente nos currículos plenos do ensino médio. A mesma lei define um prazo de cinco anos, a partir de sua publicação, para que esse idioma esteja convalidado. Assim, estará definitivamente no currículo escolar básico até 2010.

De fato, temos visto produtos e mercadorias nas gôndolas dos supermercados que exibem rótulos e instruções nos dois idiomas. Faltava disciplinar o espanhol no contexto cultural e educacional.

A passos lentos, as escolas, principalmente as particulares, estão se adaptando e ofertando o ensino dessa língua estrangeira. E começam a ser formar professores e orientadores no tema.

Ocorre que, tendo em vista a predominância do ensino do inglês – o qual sempre foi uma premissa de excelência curricular – e a massiva introdução dessa língua nos falares nacionais, propagandas, etc. (estrangeirismo lingüístico), o ensino e a difusão de outros idiomas ficaram ofuscados.

Isso se dá desde os primórdios da civilização, pois um Estado ou cultura mais avançado sempre impetrou o seu idioma como instrumento de dominação. Hoje em dia, o que impera é a hegemonia econômica e cultural dos EUA. Mas reportemo-nos ao nosso caso – o espanhol.

O chamado idioma espanhol, na verdade, é o castelhano, mistura dos falares proto-ibéricos com o latim vulgar, falado pelas tropas de ocupação dos romanos, e pela conseqüente romanização da Península Ibérica a partir dos séculos I e II d.C. Mistura também de palavras e expressões vocabulares emprestadas do árabe, já que estes também ocuparam o solo ibérico por 700 anos, a partir do século VII d.C. Preponderante na península – já que utilizado pela maioria da população falante – e tendo o reino de Castela, no séc. XV, em união política com os reinos de Aragon e Leon, formado a Espanha, o castellano é, por essa razão, chamado de español.

Durante a expansão espanhola nos séculos XVI e XVII, os militares e expedicionários eram originários, em sua maioria, de Castela, pois os demais reinos que compunham a Península Ibérica, tais como os da Catalunha, Astúrias, Galiza e Andaluzia, eram vassalos do soberano castelhano. Assim como o reino de Portugal o foi durante 80 anos, englobando o Brasil e as demais colônias portuguesas.

Quando o duque de Bragança, em 1639, aproveitou a revolta catalã para promover uma revolta também em Portugal, Castela preferiu perder Portugal a perder sua rica província catalã, que abarcava naquela ocasião metade do sul da França, o sul da Itália e a Bélgica, bem como toda a costa da hoje Argélia e Marrocos.

Assim, não fosse uma rebelião em Barcelona contra o domínio castelhano, nos idos do séc. XVII, nós hoje, no Brasil, estaríamos falando espanhol...

 

Amadeu Tavares

amadeu_tavares@hotmail.com

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