TEXTOS DO AUTOR

INSÔNIA CABELUDA

Pense bem. Como você acha que um barbeiro pode reagir à novidade da análise mineral do cabelo? Só pode mesmo se espantar. E ficar matutando sobre como esse mundo velho está mudado.

Nunca acreditei na minha gata Windy, aquela meio persa, meio siamesa, que morreu em 11 de agosto, quando reclamava de insônia.  Pois é, se ela dormia o dia inteiro... não podia reclamar.  Bem, na verdade não reclamava. Coisa minha. Apenas me olhava com aquele rosto, digo, cara impassível de gata sabida, parecendo debochar das minhas somatizações. Eu é que na verdade a imaginava insone, triste sina, como se fosse uma companheira de infortúnio. A elegância e a imponência dela, me observando a perambular pelos cômodos e corredores, num apagar e acender de luzes, sempre me sugeriu que ela pensava que eu podia estar reclamando de barriga cheia. Eu sei, eu sei, muitas vezes a gente reclama de barriga cheia. E dá importância demasiada a probleminhas. Mas barriga cheia no meu caso sempre foi uma constante, já que meus contínuos e descarados assaltos à geladeira duram de meia-noite às cinco. Pensando bem, não havia razão para uma gata de vida simples ter problemas de insônia. Gata que é gata não dá a mínima para coisas mundanas. Daí a César o que é de César. E ela estava certa.

Há pessoas que transformam as noites insones num festival de criatividade. Há outras que não conseguem fazer nada. Não produzem nada. Só querem dormir.  Acho que é o meu caso.

Remedinhos? Nem pensar. Dão efeito contrário. O nome bonito para isso é efeito paradoxal. Já me disseram que meu problema está no interruptor. Que não funciona. Pode ser.

Às voltas com a insônia, danada, companheira inseparável, resolvi procurar um médico diferente. A tão falada medicina homeopática, combinada com ortomolecular e outros que tais. Enfoque muito diferente da medicina tradicional. Dentre alguns exames singulares, há um que envolve análise do cabelo, o mineralograma, que identifica metais tóxicos e minerais essenciais no organismo.

Nos cinco dias que antecederam a coleta, tive de usar xampu neutro. Mas nesse ínterim resolvi cortar o cabelo.

Quando me sentei na cadeira do salão, já fui explicando ao barbeiro: “Helio, não use nada  de creme e outros babados.  Estou usando só xampu neutro. Vou fazer um exame do cabelo na segunda”.

Ele, então, naturalmente perguntou: “Ué! está caindo o cabelo?”.

Ao que respondi: “Não! é por causa da insônia”.

Nessa hora ele estava completamente visível no espelho enorme. Foi interessante a expressão. Tesoura aberta numa mão, pente na outra, boca assim meio mole e torta, pulso meio bambo, rosto inclinado para baixo, olhos no canto por sobre os óculos, sobrancelha repuxada, uma mais alta do que a outra, entonação de espanto sonso:

“Insônia?! exame do cabelo? minha nossa! eu, hein! Êta mundo véio...”.

 

Aristides, 6.10.2008  

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