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"Ter que" e "ter de" à luz da Gramática Justificativa

A combinação "ter de" tem muitos defensores. E "ter que" tem muitos simpatizantes. Faça a sua opção. Saiba ainda o que é a tal da "Gramática Justificativa" lançada hoje.

Já que vamos falar do verbo "ter", bom lembrar que "ter" não significa "existir". Assim, deve-se evitar: "Não ‘tem’ vaga, não ‘tem’ nada no cabide, não ‘tem’ lugar, não ‘tem’ de quê, não ‘tem’ tempo para isso, não ‘tem’ problema, ‘tem’ muita gente, não ‘tinha’ solução, não ‘teve’ jeito". Deve-se dizer: "Não há vaga, não há nada no cabide, não há lugar, não há de quê, não há tempo para isso, não há problema, há muita gente, não havia solução, não houve jeito", já que "haver" é que significa "existir".

Da mesma forma, evitar: "Hoje ‘tem’ jogo às 21h, na Globo ‘tem’ Jô Soares, não ‘tem’ defesa para esse crime, ‘teve’ de tudo na rodovia no fim de semana, onde ‘tem’ banco ‘tem’ Caixa, ‘tem’ hora para tudo".

Melhor dizer: "Hoje há jogo às 21h, na Globo há Jô Soares, não há defesa para esse crime, houve de tudo na rodovia no fim de semana, onde há banco há Caixa, há hora para tudo". Soa um pouco pedante, não é mesmo? Para fazer sua opção, você vai ter de pesar uma série de coisas e usar o bom senso.

Usar "ter de" ou "ter que" é dúvida bem comum. Se fôssemos forçados a optar por uma forma, em resposta rápida e rasteira, melhor usar o "ter de" em textos formais. Se dentro do texto há diálogo – sabemos que em diálogo tudo se pode –, o "ter que" se encaixa perfeitamente. E na linguagem coloquial, que se use à vontade. Ou se tolere o "ter que", que vem se enraizando no linguajar do cotidiano. A língua é dinâmica. Muito provável que, sobre enraizamento, Napoleão Mendes de Almeida, sempre intransigente, viria com seu chavão: "A freqüência de incidência não justifica o erro, e alevantar suspeição de erro impõe-se a quem do ensino faz profissão" (Dicionário de Questões Vernáculas, p. 312). Mas todos sabem que Napoleão era ortodoxo ao extremo.

No entanto, o raciocínio que se usa com o português, em muitos momentos, nada tem a ver com o cartesianismo dos matemáticos. Há muitos autores que, além de usar "ter que", ainda podem apresentar argumentos bem convincentes.

O que se segue não guarda a intenção de ditar regras. São apenas apontamentos que mostram as várias opiniões sobre o assunto.

Thaís Nicoleti de Camargo, da Gazetaweb, assinala:

A leitora Isabel quer saber o correto emprego das construções "ter de" e "ter que".

Embora hoje seja comum o uso indistinto dessas expressões, existe, sim, uma diferença entre elas. A idéia de necessidade, obrigação ou dever que o verbo "ter" pode emprestar a outro numa locução verbal expressa-se pela construção "ter de". Assim: "Tenho de sair mais cedo", "Ele tem de devolver o dinheiro" etc.

"Ter que" aparece em construções como as seguintes: "Até parece que ela não tem que fazer", "Agora ele não tem que dizer". Observe-se que, nessas frases, o "que" tem função substantiva (é um relativo indefinido), com o sentido aproximado de "coisa que" ("Ela não tem coisa que fazer", "Ele não tem coisa que dizer").

Em frases como essas, é comum hoje o uso de um "o" antes do "que" ("Não tem o que fazer"), mas ele, embora aceito, não é necessário nesse tipo de construção.

Com base nesse princípio... Tenho de comprar = sou obrigado (tenho necessidade) de comprar. Tenho que comprar = tenho muitas coisas para comprar. Tenho de comer = tenho necessidade de (ou devo) comer. Tenho que comer = tenho alimentos para comer.

Eduardo Martins, no seu Manual do Estadão, nem perde tempo em explicar o "ter que". Recomenda usar sempre "ter de" quando o sentido for de necessidade, obrigação, desejo ou interesse: O Brasil terá de importar arroz. / Temos de prever as despesas do próximo semestre. / O trabalho tem de ser iniciado hoje. / Eles tinham de sair cedo. / A prefeitura teve de indenizar os desapropriados.

No entanto, no seu Dicionário de Verbos e Regimes (p. 567-8), Francisco Fernandes nos traz que "ter que = ter de":

Ter de — estar obrigado a, estar na obrigação de: "E com este uso temos de nos conformar." [...], "Teve de ceder ao fato incontroverso." [...]

Ter que — ter obrigação de; ter de; estar obrigado a: "A Espanha teve que despejar a casa." [...], "Teve que concordar." [...] — dar por assentado e certo; admitir; concordar: "Tenho que ainda as alcatifas se lembrarão de mim." [...]

"Em ter que, seguido de um verbo no infinito, o vocábulo que é, em regra, pronome relativo, referido a um antecedente expresso ou oculto, e complemento direto de infinitivo, ex.: ‘Tenho muito que fazer’. Outras vezes, porém, não havendo antecedente a que possa referir-se o relativo, este perde o seu caráter próprio e assume o de palavra meramente conjuntiva, ex: ‘Tu não tinhas que ir lá’. Trata-se, neste caso, de uma construção analógica, por influência ou contaminação sintática de outras frases, e na qual a palavra conjuntiva, de modo inteiramente anômalo, é seguida de um verbo no infinito." (M. P. Sousa Lima, Gramática, 457.)

Como curiosidade, o leitor poderia consultar o Dicionário de Questões Vernáculas e verificar com que brabeza Napoleão Mendes de Almeida se manifesta quanto à diferença entre "ter de" e "ter que". Eis um trechinho:

[...] pode retrucar o professor enganado e enganador [...] que em "ter que" o que pode significar de e, portanto, o que é aí preposição. Como? perguntamos; desde quando sinonímia acarretou eqüipolência de função? Desde quando obstinação foi justificativa de erro? Que procedimento é esse de inventar função léxica para uma palavra que está empregada por outra, ou seja, de julgar que o tabelião ao inventar sobrenome para uma criança justifica-lhe a procedência espúria? Passou esta a ser agora a função do professor de português, justificar erros, alardear como regras distrações, dar aos cochilos foros de acerto, inventar funções como se tivesse descoberto verdades? [...] – op. cit., p. 312

Se você é revisor, não se apoquente com essas divergências. E fique atento quanto ao sempre bem-vindo bom senso. Hoje em dia, tende-se no próprio meio acadêmico a aceitar cada vez mais as variantes lingüísticas. E o conceito do certo-e-errado vai se flexibilizando.

Sobre essa questão do "isso é certo, aquilo é errado", a mestra M. T. Piacentini, em conversa informal sobre a necessidade de sermos menos ortodoxos quanto ao uso da nossa língua, afirma: "[...] se fosse assim, nosso Chico Buarque e nosso Carlos Drummond estariam errados, não saberiam português. Entendo ainda que revisor precisa ter bastante flexibilidade para aceitar as variantes da língua, até para não interferir no texto que está revisando e não descaracterizar o estilo do autor. [...]". Ainda sobre esse tema, fica clara para M. T. Piacentini a "necessidade de sermos menos gramaticistas (ou gramatiqueiros) e mais compreensíveis com a evolução da língua".

Pelo fato de nos reportarmos ao gramático Napoleão, a professora catarinense comenta: "É valiosíssimo ainda em certas questões difíceis, relacionadas ao latim principalmente, mas ele não pode ser tomado como parâmetro daquilo que se entende por uma boa redação".

En passant, engraçado é o uso do "tem que" que uma pessoa muito conhecida minha faz. Na realidade ela usa "tem qui". Quando ela diz, por exemplo, "tem qui trocar a fralda..." a expressão vem impregnada de uma impessoalidade ímpar e matreiramente dirigida, em que ela própria se exclui da tarefa e a transfere para quem estiver perto. "Tem qui trocar a fralda" = "Alguém troque essa fralda, por favor".

Vocês não acham que esse fato dá margem a se criar aqui, neste exato momento, a "Gramática Justificativa"? Ela será a base para colecionarmos algumas justificativas singulares, por vezes bem safadinhas. Por exemplo, a Gramática Justificativa daria embasamento para que o avião que derrapou na cabeceira da pista de Congonhas fosse "issado" por um guindaste. Por que issado e não içado? Porque na hora do acidente – que felizmente não fez vítimas – todos gritaram assustados: "O que é ISSO? O que é ISSO?". Logo, o avião, com base na "Gramática Justificativa", seria ISSADO e não içado. O que acham?

Aristides, 13.9.2008

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