TEXTOS DO AUTOR

Muçarela revisada e mussarela sem revisão. Todas porém com azeite

Dizem que há revisores tão chatos que se recusam a comer em restaurante cujo cardápio tem deslizes de ortografia. Só aceitam muçarela. Usam azeite. Mas nunca dão aceite.

A falta de revisão textual em cardápio deveria servir para divertir os clientes. Jamais para irritá-los.

Conheço um sujeito revisor que não tem um pingo de senso de humor. Tem rédea curta também. Nem as invenções criativas dos pizzaiolos ele aprecia. Não acha graça nem em pizza com o nome de Frangoela (não lhe desce na goela), nem na mistura arrojada de frango com atum (ora, é apenas mais um). 

Já bobagens como pressunto, mussarela, mussaela, aí então ele vira bicho.

Recusar-me a comer pizza só porque é de pressunto? Eu, não. Ora, pressente-se que é presunto e fim! Eu pressinto o presunto no pressunto, convenhamos. Você pressunte?

Recusar-se a saborear pizza de mussarela só porque o certo é muçarela, mozarela e mozzarella?

Ir para o google procurar o que é mussaria? Pra quê? Perda de tempo, só aparece site estrangeiro no caso de mussaria. Mussaria não saria, digo, seria, do verbo mussar?

Ligar para o tele entrega ou tele-entrega ou teleentrega ou telentrega, e perguntar por que às vezes entregam a pizza com hífen, outras vezes sem hífen? Aí é demais!

Será que os revisores precisam ser mais permissivos? Perdoar-se mais? Ser condescendentes?  

Há momentos que realmente acho que sim.  Se não o fardo da gente parece pesado demais.

Quem sabe usar daquele desacerto dos autores que se acham auto-suficientes para escrever sem revisor.

Ou daquela fantasia dos autores que, porque são advogados, acham que dominam o idioma. Ou usar daquela tranqüila sandice dos escritores que imaginam que título de jornalista, professor, pós-graduado, basta para prescindir da figura do revisor.

O pior de tudo é que os casos em que o revisor não é chamado – o que gera bobagens mil impressas nos panfletos, nos livros, nos cardápios, nos jornais –, estes casos geralmente nunca acabam em pizza. Geram arrependimentos que poderiam ser evitados.

Como o caso daquela senhora do interior de Goiás. Professora conhecidíssima na cidade, ao descobrir uma parafernália de erros no livro recém-impresso, guardou todos os exemplares debaixo da cama.  E ninguém, nem a família, teve acesso ao livro, que hoje está todo empoeirado, quando não embolorado, ao lado do penico e daquele par de sandálias de tira arrebentada. Caso que também não acabou em pizza.

Voltando ao cardápio do pizzaiolo criativo que bota revisor pra escanteio. Não pensem que pelo que eu disse dos revisores exigentes eu vá aceitando comer qualquer coisa. Se há pizza que não admito é a tal da Luana, com mussarela, lombo, peperone e fígado em calda. Eu detesto fígado.

Aristides, 27.8.2008   

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