TEXTOS DO AUTOR

Um ladrão muito legal

Avalie o papo do ladrão, faça uma análise custo—benefício. Parabenize o meliante (sem exageros), quando for o caso de ele usar uma boa tática de marketing. E don%u2019t worry, be happy.

Depois de ter tido o carro arrombado, vidro quebrado, painel destruído, som surrupiado, depois de uma via sacra por delegacia, perícia, concessionária, Detran, arrefeci. E tirei uma soneca no sofá. Bastou meia hora para aquele sonho estranho e esclarecedor...

Fui abordado por um rapaz de uns 22 anos que me perguntou se eu tinha um tempinho. Fechei o carro e me coloquei a postos para ouvir. Me pediu 150 reais. Tenho estipulado minhas gorjetas para flanelinhas na faixa de cinqüenta centavos a dois reais. No máximo. Casos outros, a gente estuda.

Como me espantei com o valor, o rapaz, aba do boné virada para a nuca, pediu educadamente a oportunidade de justificar.

“Tenho por profissão furtar objetos dentro de veículo. Sem violência, caso contrário não seria furto, mas roubo, o senhor sabe.  E costumo quebrar o vidro, em vez de furar ou arregaçar a porta. Não pense que sou iniciante, sou especialista – é questão de estilo. Como tudo é muito rápido, costumo usar a chave de fenda não para desparafusar, mas para arrancar o som do painel. É quase tudo de plástico, mole-mole. O senhor entende, o pensamento dominante é velocidade e não cuidado. Assim não fosse, eu estaria mesmo é na equipe da Fórmula Um. Dou uma olhada no porta-malas. Essa vistoria, faço por dentro do carro mesmo.  Geralmente há uma mochila lá dentro com a frente do aparelho do som, algumas roupas e outras coisinhas úteis.

Objetos da mochila podem valer em certos casos até uns 200 reais. O aparelho de som varia. O valor médio é 300. Mas acabo passando tudo por apenas 100 reais. Mas o seu prejuízo, chefe, não é mole não! Uma tristeza... Pode chegar a 2 mil reais. Se o senhor então me conseguir 150, fica melhor para mim e para o senhor, com certeza. Eu ganho mais, meu trabalho fica mais leve e mais cidadão. O senhor tem menos prejuízo, sobra mais tempo para lazer. Chato ficar por aí atrás de orçamentos e segundas vias.”

Acabei não dizendo niente. Tirei três notas de cinqüenta. Quase chorando, emocionado, dei um abraço no cara. Era uma chance que a vida me oferecia.

Acordei com uma sensação de que o sonho era profético, embora tenha acontecido um pouco defasado no tempo. Os estragos já haviam se consumado.

Realmente o painel, o vidro e o som custariam exatos dois mil reais. Estava com os orçamentos ainda no bolso da camisa.

Não tão aliviado, mas com outra visão de mundo – que ainda não entendi bem qual –, comecei, a partir daquele momento, a me empenhar seriamente em recomeçar a jogar xadrez, e usar boné ao contrário. E meditar sobre quantos sonhos não tenho perdido em função da insônia. Por que xadrez? Para prever muitos lances na frente. Por que boné ao contrário? Sei lá, deve ter uma lógica.

Aristides, 21.6.2008

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