TEXTOS DO AUTOR

ACENDA A LUZ

Quando o assunto é "fazer luz", vamos encontrar criaturas que luzem como lâmpadas elétricas, outras, como faróis, até aquelas com o potencial de um Sol.

Há locais na internet em que você lança suas perguntas e fica à espera das manifestações do público. Chamou-me a atenção esta: “Você tem admiração por alguém de outra religião? Por quê?”.  Eis uma das respostas: “Uma pessoa que eu admiro muito é o pastor da igreja da minha vó. Ele levanta cedinho, faz café e pão com mortadela. Depois de tudo prontinho, ele e a esposa vão pro centro da cidade, armam uma mesinha e começam a alimentar a turma que dorme na rua. Esse é mais um desconhecido que faz a diferença”.  Mas a melhor resposta, de acordo com o autor da pergunta foi: “Os santos praticam a verdadeira a religião. Estão sempre se ocupando em socorrer os irmãos desfavorecidos. Às vezes estão associados às religiões, às vezes não, mas todos eles guardam um traço de semelhança: o amor ao próximo. Não importa o nome, Chico Xavier, Irmã Dulce, Gandhi, Luther King, Madre Tereza de Calcutá. Quem pode dizer que essas pessoas não tiveram vida santa?”.

E eis a avaliação do autor da pergunta: “Todo aquele que luta pelo bem, pelos marginalizados e excluídos, pelos oprimidos... Todos aqueles que lutam pela paz e pela justiça, com certeza são santos. Santidade independe de religião”.

Há quem imagine que o sentido de ser santo esteja ligado tão somente a religião, ritos sagrados, a alguma divindade, a Deus, a pureza essencial. As afirmações contidas nos parágrafos anteriores nos levam a entender com mais facilidade o sentido alternativo que o dicionário apresenta para a expressão “ser santo”. Ser santo também é ser virtuoso, bondoso, ter conduta exemplar. Ou então ser irrepreensível, digno de veneração e respeito. Ou, quem sabe, ter um acurado respeito pelo interesse comum e não individual. Ou, ainda: entender compromisso social na verdadeira acepção do termo e, quem sabe, ter esse tema como bandeira.

James Keller é autor do livro You can change the world. Americano, moralista de primeira, o autor fundou um movimento chamado Christopher.  Vou lhes dizer por que sinto admiração por Keller.  E ele não é religioso.

Mario Tamassia também admira Keller, a ponto de citá-lo no artigo Apenas a luz de um fósforo, em seu livro A mãe que desistiu do céu (IDE, 1. ed., p. 80), onde nos afirma que no movimento Christopher pode ingressar qualquer pessoa, de qualquer religião. E eles não têm estatuto, não exigem qualquer tipo de mensalidade ou taxa. O único pré-requisito é o cidadão “conscientizar-se de que possui responsabilidade individual pelo bem comum”. Assim, ingressa quem se dispõe a empreender determinada obra comunitária, ou se interessar efetivamente pelos problemas da comunidade.

Nessa ótica, um fio desencapado que possa provocar acidentes passa a ser um problema de todo cidadão e não só da concessionária de energia. Uma água parada é responsabilidade de todos e não só da saúde  pública. Assim, não há lugar para a passividade descompromissada, na espera pelo Estado providencial e paternalista.

Keller compara um gesto de bondade, por mais humilde que seja, com vela, com chama, com luz. Quem já acendeu um pequeno fósforo num ambiente escuro pode entender o poder da luz. Assim, “na escala que vai de nós a Deus, encontraremos criaturas que luzem como lâmpadas elétricas, outras, como faróis, até aquelas com o potencial de um Sol”. O importante então é fazer luz, de qualquer forma, lembrando que pequeninas chamas juntas podem banhar de luz um recinto imenso. Lembremo-nos que o Pai Criador não nos quer primeiro perfeitos para depois fazer luz. Ele necessita de nós agora – mesmo ainda em plena caminhada evolutiva –,   para que o tão falado Reino se instale na Terra. Quem seriam esses intermediários do Reino? Evangélicos, católicos, espíritas, budistas, islamitas? Brancos, negros, ricos, pobres? Médicos, padeiros, operários, mecânicos, filósofos? Seríamos nós todos! a qualquer hora e em qualquer lugar, pois estamos no mesmo barco.    

Brilhar a nossa luz.   Não colocar a candeia sob o alqueire.  Freqüentemente Jesus mencionou a necessidade de acendermos a nossa luz interna e deixarmos que ela se espalhe, impregnando ambientes, alcançando aqueles que estão ao nosso redor. O sentido de luz, na sua positividade intrínseca, é amplo. Nesse entendimento, compromisso social, atuação ética, conduta moral irreprimível, tudo é luz, nas trevas de um mundo que ainda prima pelo egoísmo.

E quando pessoas como Keller e tantas outras, sem nenhuma rotulação religiosa, mas com tanta consciência coletiva, fazem isso melhor do que nós que nos dizemos religiosos, não fica até constrangedor?

Aristides Coelho Neto, 6 abr. 2008

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