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CRASH, NO LIMITE, FILME IMPERDÍVEL

Nunca escrevi crítica alguma de filme nenhum. Mas como eu assistiria "Crash, no limite" de novo, me deu vontade de dizer algo. O filme é tão bom que nem sinto ser a avaliação extemporânea.

Descobri hoje que nunca escrevi crítica alguma de filme nenhum.

Como assisti Crash por duas vezes – e  toparia assistir de novo, em boa companhia – me deu vontade de dizer algo.

Tido como o melhor filme internacional de 2005, Crash, de Paul Haggis, acabou levando o Oscar em 2006. Eis o elenco: Sandra Bullock, Brendan Fraser, Matt Dillon, Don Cheadle, Ryan Phillippe, Thandie Newton, Alexis Rhee, Loretta Devide, Terrence Howard, Ime Etuk, Larenz Tate, Michael Peña.

Os dramas apresentados são os do cotidiano. Fragilidades humanas, contradições, humilhações. Fé, intolerância, solidão, medo, isolacionismo. Violência, desconhecimento das nossas fixações e traumas, preconceito. Situações aparentemente independentes vão pouco a pouco apresentando suas interfaces, produzindo resultados não-conclusivos mas que ensejam reflexão. E fazem com que os telespectadores os tenham como positivos. São histórias que correm em paralelo, mas que se confundem de forma harmoniosa. Aparentemente houve algum tipo de aprendizagem para os personagens, que ao fazer eclodir seus vulcões internos, são levados a “aprender lições”, cada um a seu modo, num processo natural de ressignificação.

E a mensagem da batida de carro (crash) no início e no final da trama indica que o tema tem um caráter cíclico. O recurso narrativo induz a que a intolerância, exibida no início, tem continuidade ao final da fita. Mostra claramente que hoje essa não-virtude faz parte do nosso repertório.

De acordo com a maioria das críticas, o filme trata da violência e intolerância sob uma nova ótica, própria de um período novo para os americanos, marcado pelo 11 de setembro de 2001.  Preconceitos radicalizados, acirramento da intolerância. Tudo gerando violência, sutil ou escancarada.

Se é que captei corretamente a mensagem – ou mensagens, que podem ser muitas... – não existe ser humano totalmente bom ou totalmente mau. Pode-se traçar um paralelo com a noção de felicidade que as pessoas têm. Não existe felicidade completa, mas sim momentos de felicidade. Aproveitar os momentos bons pode enriquecer sobremaneira a nossa existência. Assim, recomendável entender que cada pessoa é peça de uma grande engrenagem, cada um com sua importância. Gestos dignos e louváveis muitas vezes vêm de pessoas das quais não se espera nada. Entender isso pode mudar a nossa vida para melhor.

Crash, tenho a impressão, pode ter levado muitos espectadores a compreender que a paranóia de enxergar os outros como potenciais inimigos é justificável, principalmente na sociedade americana do pós-11. Como pode ter levado muitos a admitir que, pela falta de sentimentos mais espiritualizados, pela falta de noções elementares de ética e moral, estejamos mais é lutando com inimigos internos.

Foi dito ainda nas críticas em que passei os olhos que o filme sugere que as pessoas, para entender determinadas coisas e romper certas barreiras, têm de sofrer alguns “crashs”, algumas sacudidas. Muitos de nós sabemos disso por experiência própria.

Bem, há muito a dizer sobre o filme. São várias as apreciações em todo tipo de mídia, incluindo teses de doutorado.

Vou me limitar a sublinhar uma cena que me trouxe uma satisfação incontida. Aparentes mau-caracteres do filme, mostram, diante do inusitado, um outro lado de sua personalidade. Fariam possivelmente muito mais. Não o fazem quem sabe por falta de oportunidade.

Quase ao final do filme, um marginal negro (Ime Etuk), que leva a vida no crime, toma uma decisão singular de libertar um grupo de cambojanos que seriam negociados como escravos. Ele nem sabe bem por que está fazendo aquilo. Mas o sorriso solitário de Ime diante da sua atitude revestida de nobreza é uma cena imperdível. A auto-estima do cara foi a mil. Se mudaria substancialmente a sua vida, não se sabe. Mas por essas e outras, esse filme é fascinante.

 Aristides, 24.4.2008

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