TEXTOS DO AUTOR

OS GNOMOS PALPITEIROS

De como os gnomos e duendes foram proibidos de opinar em processos na gestão de Georges Harold, nos idos de 1998.

Georges Harold era presidente de uma conceituada empresa. Esmerara-se para aquela reunião da tarde.  Além de passar aos funcionários os princípios que norteavam os trabalhos do redesenho da empresa, queria enfocar a forma de combater a desmotivação que reinava nos últimos tempos. Queria dizer do zelo que se deve ter para com as coisas da companhia, da personalização dos espaços de trabalho, como forma de incentivo pessoal e para com os colegas.

A reunião foi um sucesso.  Georges Harold falou sobre transparência, participação, envolvimento, confiança, perseverança. Mas ao tocar no assunto do tratamento amoroso dos espaços carregou nas tintas.  Quase se emocionou.  E convenceu!

Todos saíram dispostos a humanizar os seus cantinhos de trabalho.  E cada qual o fez a seu modo.

Maria Natércia, que  tinha dois vasos com violetas, aumentou a coleção para sete. E mais uma samambaia.  Pendurar o xaxim no forro de gesso é que foi difícil.

Ronildo que, timidamente, tinha fotos dos seus filhos num canto do vidro que cobria a mesa, resolveu trazer de casa três porta-retratos com fotos dezoito-por-vinte-e-quatro, que ostensiva e orgulhosamente colocou sobre uma mesa de apoio.

Abigail não se fez de rogada.  Trouxe de casa um móbile que nada mais era que uma revoada de anjos.  Pouco se importava se o criativo brinquedo, pendurado na luminária, dava  um toque infantil.  Era mais angelical que infantil, isso sim!

João Antônio trouxe seus sinos.  O blim-blom dos tubos metálicos de vários tamanhos era – tínhamos de reconhecer – muito melhor que as músicas baianas do sistema de som que, vez ou outra, martirizavam aqueles que queriam se concentrar em assuntos de trabalho.

Sandoval quis trazer o que ele mais prezava, para humanizar sua sala: seu cachorro poodle toy.  Só que foi barrado na portaria.  O vigilante, definitivamente, não entendera o espírito da coisa.

A empresa estava diferente.  Além da satisfação que se notava em cada semblante, era interessante percorrer os seus diferentes setores, pois havia uma surpresa a cada porta que se abria.   Exageros?  Bem, nada tão gritante assim...

O problema maior, no entanto, estava na sala de Antonina.  Mística, a nossa colega de trabalho, muito antes dessa nova onda na empresa, acumulava uma coleção de duendes e gnomos nas prateleiras de seu armário.  E bastou o sinal verde do presidente para que Antonina triplicasse os seus seres elementais.   Os pequeninos entes da natureza ganharam um hábitat para nenhuma feira mística botar defeito.   Eram montanhas, rios, árvores, carneirinhos. Vitrine de loja com uma pitada de  presépio.   E muitos, muitos gnomos. O cenário espalhava-se da estante, passando por duas mesas, indo até a escrivaninha do computador.  Sobrava pouco espaço para  trabalho mesmo.

Foi assim que dona Doralice, sua chefe imediata, comunicou ao presidente a enrascada em que estava.  Como chamar a atenção de Antonina  sem ofendê-la?  Ela,  ingenuamente e a seu modo, estava apenas seguindo a orientação do senhor Georges Harold.   O presidente, depois do expediente, quando todos já haviam saído, atendeu ao convite da chefe Doralice e foi ver de perto a “floresta” de Antonina.  Quase caiu duro.  Lamentavelmente, Antonina teria que puxar os freios.  Assim não era possível.

Senhor Georges Harold armou-se de coragem e sapiência.  Naquela sexta-feira mesmo, ao final da tarde, mandou chamar Antonina.  Foram trinta minutos de conversa amável e bem estudada.   Não queria melindrá-la.    E parece que Antonina entendeu.   Prometeu  mais ponderação.

A chefe Doralice ficou satisfeita.  Notou que Antonina continuou com o mesmo humor, sinal de que não ficara ressentida.

Qual não foi a surpresa de todos quando, na segunda-feira, tudo amanheceu exatamente do mesmo jeito.  E a expressão de Antonina não indicava nenhuma providência maior a ser tomada.  Dona Doralice não se conteve:

— Antonina!  Pensei que você ia mudar alguma coisa!... Continua tudo como estava na semana passada!

— Você que pensa, chefinha!  Claro que mudou! e muito! A partir de hoje, nenhum gnomo ou duende mais vai dar opinião nos nossos processos. Dou minha palavra!

 

Aristides Coelho Neto (em carta ao Jornal Comunidade – Brasília, 1º.4.1998 — O palco era a CODEPLAN...)

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