TEXTOS DO AUTOR

A CASA EM CIMA DA ÁRVORE E O AVÔ DILIGENTE

Tudo foi surgindo a seu tempo. Primeiro os filhos, depois a floresta, os netos. E claro, emoções diferentes. Avô paciente, sábio, empreendedor.

Ah! essa criançada de hoje com seus smartphones... tadinhos. Se não fossem os avôs como conexão entre o mundo real e o mundo imaginário, entre a coordenação motora e a insipiente ginástica virtual, entre a teoria e a prática...  Ah! se não fossem.

Tudo que vou dizer aqui tem por objetivo louvar a atitude de um avô vizinho, em prol dos netos.

Cresci trepando nas goiabeiras e mangueiras que havia em nosso quintal lá no interior de São Paulo. Fiz casa de Tarzan suspensa. Uma carretilha facilitava o envio de provisões lá para as alturas, já que super-herói não é de ferro. Isso dava emoção. Lanchar em cima da mangueira. Menino, macaco, Tarzan. Hoje, o máximo que consigo é fazer o neto ou a neta subir até a metade da jabuticabeira. Mesmo assim, fico de olho para que não despenquem, já que não estão acostumados.

Minha interação com animais era grande. Lembro-me que dois saguis apareceram certa vez em meu quintal — antes o trema nos levava a pronunciar corretamente: sagüi. Hoje só pronuncia certo quem for amigo do sagui. Pacienciosamente, ensinei os primatinhas a comer na minha mão. Tive também um tatu-galinha que era um verdadeiro sucesso na redondeza, pois me acompanhava aonde quer que eu fosse. Dava-lhe banho, escovava seu casco, no  tanque de lavar roupa. Podem não acreditar, mas é verdade. Caramba! Como o tempo passa! Só há uma testemunha viva desse cenário, minha irmã, que mora lá em Rio Preto.

Gatos, tive vários. Meu papagaio, não era bem meu, era mesmo é do vizinho. O bichinho fugia para a minha casa e jamais queria voltar para a dele. O negro Tomé, de íris esbranquiçada denunciando sua idade avançada, que ia lá em casa cortar lenha (o fogão ainda era de lenha),  segundo se dizia, havia sido escravo. Eu o acompanhava nas suas histórias fascinantes.

Rádio portátil, bicicleta motorizada, trenzinho elétrico importado, tê-los só as famílias que tinham grana. Mas a amizade tinha um valor singular. Vinha em primeiro lugar, independia da situação econômica da família. Os preconceitos, na maioria das vezes, as crianças adquirem pelo mau exemplo que lhes passam.

Eram poucos brinquedos. Por serem poucos, duravam muito, o que não acontece hoje com nossas crianças, mesmo porque quase tudo é descartável. A criatividade para inventar brinquedos era muito exercitada. Meu carrinho de rolimã, daqueles que estouravam os dedos da gente, chegou a ter almofada e freio com borracha de câmara de ar, tudo feito por mim.

Para se ter uma idéia de como os brinquedos resistiam aos anos, a bicicleta verde, pneu balão, que ganhei com nove anos de idade, durou até os vinte.

Nossas aventuras eram reais e empolgantes. Apelo para a memória e me vem uma prova de coragem a que eu e um amigo resolvemos nos submeter. Era quaresma. Comum fazer caveiras com mamão verde. Uma vela acesa por dentro e pronto, colocar na escuridão onde as pessoas pudessem ver... e se assustar. Dizia-se que na quaresma era frequente aparecerem lobisomens, sacis e outros seres indesejáveis e assustadores. Munimo-nos, eu e ele, de vários artefatos de defesa e fomos dormir lá no fundão de nosso quintal, no galinheiro, dentro de um tambor. Uma espécie de mostra de coragem. Bateu um vento, as velas se apagaram e não deu outra — vazamos. Feliz de quem correu com mais garra para o aconchego de sua casa. Quando que os pais hoje vão deixar nossos netos fazer isso? Dormir no galinheiro? Galinha? Seria aquela que vem do supermercado, imóvel e congelada? Pois é... Nós, avôs e avós, somos excelentes professores, não tenham dúvida. Aprendemos na lida, na esteira dos anos, nos quintais, nas calçadas, por sobre as árvores, companheiras fiéis. Sonhamos de forma singular.

Era o tempo das conversas, das histórias, na varanda, na cozinha, nas soleiras. Já repararam como as crianças vibram com uma boa conversa?

A professora do primeiro ano primário padeceu comigo. Porque eu já havia sido alfabetizado em casa por minha mãe e minha irmã. Minha história no jardim de infância foi breve — eu frequentara por dois dias apenas, fugindo logo em seguida. Nunca mais quis voltar. A solução foi atendimento doméstico.

Tudo isso para ressaltar — ah! se não fossem os avôs hoje em dia, com essas histórias, esses causos, inventando brinquedos a toda hora para as crianças — pobrezinhas dessas crianças, de olhos parados diante de telas de todos os tamanhos. Tadinhas...

Mas a intenção mesmo não é ficar lamentando.

Quero falar do que meu vizinho está criando para os netos. Uma casa de madeira sobre três troncos enormes de árvore, fixados em base de concreto. De lá até a piscina, uma passarela no alto,  presa por cabos de aço.  Arborismo urbano. E no quintal.

Floresta, no entanto, é elemento básico para  esse esporte. E não havia floresta, o tempero indispensável para experiência tão fascinante de andar na altura das copas das árvores.

Mas isso não foi empecilho para Jaci Flu, o destemido e criativo avô (e vizinho  de hoje),  aqui no Lago Norte em Brasília.

Ele pacientemente construiu a floresta. Levou alguns anos, mas ela está lá. Enquanto ele fazia a floresta, seus filhos faziam os usuários, ou seja, os netos.  Visão de futuro, de sonho e realização.

Aristides Coelho Neto, 11.12.2013

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