TEXTOS DO AUTOR

PRIMEIRA CLASSE

O francês de terno azul-escuro era homem conhecido, importante, elegante, respeitado. Sua finesse era indiscutível. Ou não...

Novembro de 2012. Voo TAP 439, Paris-Lisboa. 

Acomodamos as bagagens de mão sem problemas. Ali, na segunda classe. É esse o nome? já que existe uma classe mais privilegiada depois da cortina? Não importa.

Ele, visivelmente contrafeito – faltava um local para a dele –, levou sua valise para depois da famigerada cortina, que divide as aeronaves em duas partes: a dos abastados e a dos abastardos (calma, licença poética, sei que essa palavra não existe, só queria rimar). Parecia ter mais afinidade com o mundo além da cortina. Não deu certo. Trouxe sua bagagem de volta. E se virou por ali mesmo.

CavalheiroFalava francês. E tinha características físicas de francês, na minha parca maneira de analisar tipos físicos. Totalmente francês a meu ver. Tez clara, do tipo escritório. Ou seja,  branquelo, como todos os empresários paulistanos. Branco avitaminado, diríamos. Era notória a falta de sol, de vitamina D.

Nariz afilado, barba bem-feita, bochechas como a de mister Bean. Sim, eu sei que Rowan Atkinson é inglês.   

Tomei o cavalheiro francês como modelo para as próximas incursões à Renner e à Riachuelo, por absoluta incapacidade minha de ir além desses magazines. Terno azul-escuro, camisa azul-claro, sapatos pretos, meias de cor sóbria, fechando o ciclo de uma associação harmônica na forma de se vestir. Nunca tive curiosidade de dar um close na textura de camisas. Olhar o cinto dele, então, poderia me comprometer. Nesse dia, meus olhos descambaram para a esquerda, apertados, fazendo foco no braço direito do francês. Ele estava sem paletó, oportunidade para o olhar investigativo quanto à composição do tecido. A malha saltou aos meus olhos como arte pura. Nunca havia reparado na engenharia dos fios. Arquitetura dos fios, melhor dizendo. Parecia a grande chance de me inspirar definitivamente naquele modelo. Vestir-me bem. Bateu aquela vontade de ser elegante. E arrasar. E tudo combinava com cabelos grisalhos.

O tablet que ele ostentou sinalizou escancaradamente que as pessoas importantes, todas, sem exceção, deviam ter um daqueles.

Uma senhora, de repente, o aborda. Faz referência a quando se haviam cruzado. E pede para apresentá-lo a seu marido. Nessa hora é que todos à volta perceberam o quanto o francês era importante. O marido da mulher estava radiante por desfrutar daquele momento. E conversaram animadamente. A mulher, satisfeita, considerava o ato como um presente ao seu companheiro.

Além do tablet, um documento encadernado. Não consegui ler por inteiro os dizeres da capa. A única palavra que captei denunciava a profissão do ilustre cavalheiro — era consultor. Possivelmente autor, conferencista, muito mais até.  

Não se trata aqui de inveja, entendam. Não é um manifesto gay, também. Eu estava simplesmente impressionado, ora bolas!

Nos momentos em que ele deu um tempo à conversa daquele marido da mulher, estudou absorto o trabalho em espiral que trazia sempre junto ao tablet.

Eis que a posição do dedo indicador do cavalheiro gerou estupefação a nós outros. Enquanto ele lia, concentrado, já que o tema devia ser pra lá de interessante, ele enfiava o fura-bolo no nariz, imediatamente levando-o à boca. E, em movimentos alternados, repetia a cena. Nariz, boca, nariz, boca. Às vezes, boca, nariz, boca, nariz, pra variar. Cena dantesca? Nauseabunda? Sem palavras, preferi fixar o olhar na janela fechada, engolindo em seco, tentando pensar numa possível queda do avião, algo assim que me distraísse.

Até que... felizmente... ele dormiu. Ufa, só acordou em Lisboa, avião no solo.

À saída, um brasileiro da mesma fileira comentou:

— O cara é importante!...

Sem conseguir me conter, eu disse:

— Mas come meleca!

Ao que ele exclamou:

— Como?!

Eu simplesmente completei:

— Você não! Ele come.

 

Aristides Coelho Neto, 27 nov. 2012

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