TEXTOS DO AUTOR

DIVIDIR, NEM PENSAR

Os milagres da audição e a influência de Santa Catarina e Santa Clara numa ardilosa e complexa trama de resgate do último pastel.

Elaine estava no escritório, eu sabia. Quanto a mim, estava na saleta de tevê. O acionamento do micro-ondas só podia ser de Donato, na cozinha. O que me interessava era a eventual abertura da embalagem do Habib’s.  Se ela fosse aberta por ele, o que eu não queria que acontecesse, adeus. O esforço de apurar a audição era experiência interessante. Concentrar-me unidirecionalmente em busca do roçar das abas da tampa na caixa de papelão propriamente dita. Outros ruídos foram traduzidos, uma habilidade não muito exercitada. Uma tampa de vidro. Um ruído de colher. Outro de louça. A água do filtro de barro preenchendo o vazio de um copo.

Assalto à geladeiraLembrei-me do que vira recentemente num programa de televisão. Um cego de moto num estacionamento de subsolo. Em busca da saída, emitia sinais sonoros. Estalava a língua. Um estranho código que pensei só existir com golfinhos. Ou morcegos, que se desviam dos obstáculos por meio de seu radar natural. Super-humano, o cara. Também me sentia super-humano, explorava os recursos embotados da audição...

O trabalho do forno prometia se estender por pelo menos sessenta segundos, como na maioria das vezes. Era a média, quarenta e cinco, cinquenta, sessenta, quem sabe um pouco mais.

Ouço passos de Donato em direção à porta da cozinha. Ou seja, saía de onde estava. Percebo que aquele era o momento. Ele subiria a escada. E voltaria quando o silêncio se fizesse no micro-ondas. Dito e feito. Os sons dos passos na cerâmica  se alternam com outros, agora por sobre os degraus de ipê. É a minha chance. Talvez a única, já que Elaine pode de repente vir do escritório de forma inusitada.

Fecho o livro Comédias da Vida Privada, do Verissimo. Ao mesmo tempo o coloco sobre o livro de Saramago, no braço do sofá. Penso agora em Saramago, o José. Sua pontuação me deixa maluco. Sua forma de paragrafar, Deus me livre. Outro Saramago é o Alfredo, que escreveu sobre os doces do Alentejo. Enfio os pés nas havaianas. Nunca me ajeitei com a droga dos chinelos de dedo. Há uma pressão especial dos dedos nas sandálias que custei a aprender. Mas também só aprendi a andar malemal com elas. Correr, nem pensar. E viva os japoneses, que usam até com meias. Brancas.

Quase tropeço, mas consigo chegar à geladeira pouco antes de o forno branco sossegar.

Abro porta e caixa quase ao mesmo tempo. Concomitância circense. Surpreendentes coordenações motoras tão fora de moda. Lá está ele. Intacto. Circular. Amarelo, marrom, e as nuances, claro. Quem não conhece não dá nada por ele. Ele reina, solitário, no recinto quadrado. Tomo a caixa de papelão com a mão esquerda. Mas ele já está firme na destra. Foi fechar a porta com o joelho e ouvir o apito do micro-ondas disparar. É o sinal para Donato voltar.

Virgílio Nogueiro Gomes disse que primeiro se deve observar o seu aspecto. E que o olhar é o primeiro sentimento. Disse mais: o toque dos dedos na massa exterior é o outro passo. Tentei sentir o estalar da massa folhada recomendado pelo provador. Mas tudo foi muito rápido. Quando o creme se espalhou na boca, tive o ímpeto de agradecer a Santa Catarina de Sena e Santa Clara de Évora. Quem são? Sei lá, um mistério subliminar... E viva Belém!, o berço de tudo, nas terras d’além-mar.

Ao sair da cozinha já havia dado a primeira mordida. Já no quarto, de porta fechada, divido o restante em duas abocanhadas, desta vez pausadas e refletidas.

Me desculpem. Mas, jamais, jamais eu dividiria com alguém aquele último pastel de nata.

Aristides Coelho Neto, 20.11.2011

               Pastel de Nata

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