TEXTOS DO AUTOR

A CORRUPÇÃO MORA AO LADO

Onde se enquadra o ato corrupto de simular formação complementar que você não tem? e ainda para obter vantagem financeira perante o Governo?

Em qual momento estou sendo corrupto? — fiquei me perguntando depois de ouvir as apreciações do psicólogo e psicanalista Luiz Hanns sobre corrupção.  Na classificação de Hanns existem corrupção sistêmica, endêmica (em pequena escala) e sindrômica. Chama atenção a endêmica, aquela de furar fila, de não indicar ao garçom que ele se esqueceu de lhe cobrar dois chopes, de não pagar o chocolate que você comeu no supermercado, de estacionar em vaga de idoso ou deficiente sem sê-lo... e por aí vai. Não adianta acabar só com uma, já que elas se infectam ou reinfectam entre si — uma contamina a outra. Melhor vocês mesmos ouvirem o que ele diz. Se eu for reproduzir, vai faltar brilhantismo. O que me impressionou na fala de Hanns foi o didatismo dele, e a comparação com as camadas de casca da cebola. Impressionou-me também a conclusão — se não atacarmos a corrupção sistêmica, a endêmica e a sindrômica juntas e concomitantemente, não conseguiremos erradicá-las. E restaremos "iludidos por um futuro que não chega".

Quanto a mim, onde me encaixo nessas várias corrupções? Ou então (e também), onde estou errando ao denunciar essa tal de corrupção? 

Na Secretaria de Educação, certa feita, eu estava inconformado com o desperdício de água — o lavador de carro usava água do governo e deixava escorrer pelo estacionamento afora, com sua mangueira sem qualquer controle. Fui reclamar na Administração.  Resultado: perdi meu cargo de Presidente da Comissão de Recebimento de Obras.

Numa outra vez, na condição de vistoriador, exigi de uma escola particular o cumprimento de exigências, da mesma forma profissional e imparcial que sempre usei com todas as escolas que visavam credenciamento perante o Governo.  O dono da escola, um deputado distrital amigo do Secretário de Educação Marcelo Aguiar.  Resultado: perdi meu cargo de vistoriador.

No caso do SINDAFIS (Sindicato dos Servidores Integrantes da Carreira de Fiscalização de Atividades Urbanas do DF), andei me perguntando por que não aceitaram refiliar-me no semestre passado deste ano de 2017. Estive filiado até o começo de 2015, mas agora me negaram filiação. E fiquei matutando qual seria o motivo.

Não tiveram a lisura de me explicar o indeferimento. Após reiterados pedidos, só me restou conjecturar. Será que foi por causa dos meus artigos sobre um curso de Gestão Pública patrocinado pelo SINDAFIS em 2011?  (ver "A farra da pós-graduação sem esquentar a cadeira" e "É ou não é da minha conta?")

O curso de "especialização", ministrado nas dependências do SINDAFIS, custava mil reais. Podia ser feito em cinco dias,  mas também em um apenas (confessou Edelson, filho de Edilene Cunha). Permitiria (como permitiu) obter-se um certificado de curso de pós-graduação que renderia acréscimo de salário aos participantes, lesando o erário, obviamente.  O Instituto Darwin, que ministrava o curso arranjado (Edilene Cunha coordenava), tinha problemas com o MEC e com a polícia. Claro que obtive o nome dela nas reportagens de jornal, aliás, sempre desabonadoras.  O agravante é que o encarregado à época da Comunicação Social do sindicato (era Carlos?), ao telefone, reconheceu o caráter do curso — era um "jeitinho". E ainda disse o famoso "cá entre nós", como se eu, transigente e acumpliciado, entendesse a linguagem.  Vários colegas à época, sentindo o odor do malfeito, sabiamente declinaram de fazer o curso (o Urlei, a Heliana, o Francisco Otávio e outros mais).

Entendi bem o caso do lavador de carros. Entendi de imediato o caso do deputado incomodado — a gente fica desgostoso com a inversão de valores —, mas há coisas que só entendemos bem depois. No caso do sindicato, se quiserem saber, não entendi bem até hoje.

O fato de eles não apontarem o motivo de não me filiarem faz a gente inferir coisas. Seria por falta de tempo? falta de organização? Ou há coisas que nunca podem ser ditas? Seria por causa dos meus atos corruptos? Quem sabe uma boa hora de apontá-los — ou eu em minha carreira só fui honesto o tempo todo?  Seria porque não gostaram da cor dos meus olhos? ou por causa da denúncia sobre o curso de Gestão Pública? Corrupção sistêmica, endêmica ou sindrômica?

Seja lá o que for, nos dois primeiros casos, houve claro prejuízo para mim. Nesse terceiro caso, do sindicato, convenhamos,  nenhum prejuízo.

Não estar filiado não me faz menos feliz. Pelo contrário, me faz aliviado. Ao refletir sobre o "diz-me com quem andas, que te direi quem és", concluo até que levei vantagem nesse caso.

Ufa! Pelo menos uma vez. Nessas três.

Aristides Coelho Neto, 2 set. 2017

[...] Se nos sentimos realmente feridos ou injustiçados, esqueçamos o mal. Na hipótese de o prejuízo alcançar-nos individualmente e tão somente a nós, reconheçamos-nos igualmente falíveis e ofertemos aos nossos inimigos imediatas possibilidades de reajuste. Se, porém, o dano em que fomos envolvidos atinge a coletividade, cabendo à justiça e não a nós o julgamento do golpe verificado, é claro que não nos compete louvar a leviandade. Ainda assim, podemos reconciliar-nos com os nossos adversários, em espírito, orando por eles e amparando-os, por via indireta, a fim de que se valorizem para o bem geral nas tarefas que a vida lhes reservou. [...] — EMMANUEL, pela psicografia de Chico Xavier, em "No exame do perdão", do livro Estude e viva. Ed. FEB.

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